Um estudo publicado pela revista Frontiers in Energy Research investigou o potencial de produção e fornecimento de bicombustíveis marítimos a partir de resíduos orgânicos e biomassas na região do Porto de Seattle, nos Estados Unidos. A análise aponta que, com a combinação adequada de políticas públicas e soluções tecnológicas, seria possível atender até 100% da demanda de combustível do porto com biocombustíveis. No entanto, quando os custos de transporte são levados em consideração, a viabilidade cai para 27,8%.
Os pesquisadores utilizaram dois modelos integrados: o Regional Bioeconomy Model (RBEM), que simula cenários de produção e conversão de combustíveis a partir de fontes bio, e o Freight and Fuel Transportation Optimization Tool (FTOT), que estima a logística e os custos envolvidos no transporte e distribuição dos insumos. A compatibilização entre os modelos permitiu uma análise detalhada que considera tanto a viabilidade técnica quanto os desafios logísticos.
O resultado mais expressivo foi obtido com a aplicação de incentivos governamentais e a redução dos prazos de licenciamento para a instalação de plantas industriais. Estas medidas permitiram o surgimento de uma indústria regional robusta, baseada na aprendizagem industrial e escalabilidade, desde os primeiros anos de operação. Nessas condições otimizadas, o modelo RBEM indicou que todo o consumo de combustível do Porto de Seattle poderia ser suprido por biocombustíveis.
No entanto, ao incluir os custos relacionados ao transporte dos insumos e do combustível final no modelo FTOT, a viabilidade prática do suprimento caiu consideravelmente. O sistema logístico encarece significativamente o produto final, limitando o mercado potencial. Com esses custos incorporados, apenas 27,8% da demanda por combustível marítimo pode ser atendida a preços considerados razoáveis para entrega.
Outro achado importante foi que o custo do biocombustível é o principal gargalo para sua produção em larga escala. Em seguida, a disponibilidade de matéria-prima também se mostrou um fator limitante. Estes desafios podem ser parcialmente superados por políticas públicas voltadas à facilitação do acesso à biomassa e à melhoria da competitividade econômica dos biocombustíveis frente aos combustíveis fósseis.
Os autores destacam que o uso de resíduos industriais, óleo de cozinha usado e resíduo de madeira apresenta vantagens significativas quanto à disponibilidade regional e ao baixo impacto ambiental. Esse tipo de abordagem está em linha com a chamada bioeconomia circular, que valoriza o reaproveitamento de resíduos e a redução de impactos na cadeia de produção de energia e transporte.
Embora o estudo tenha foco em um porto localizado nos EUA, ele levanta questões pertinentes para qualquer região com aspirações de descarbonizar o transporte marítimo por meio de soluções baseadas em biomassa. A replicação desse tipo de análise em outros portos é vista como um próximo passo importante para a construção de cadeias logísticas mais resilientes e sustentáveis.
A pesquisa demonstra que, embora a bioeconomia baseada em combustíveis renováveis tenha potencial técnico relevante, sua viabilidade prática depende do engajamento coordenado entre políticas públicas, desenvolvimento tecnológico e infraestrutura logística. Isso reforça a necessidade de planos integrados que vão além da inovação na produção e levem em conta todo o sistema de fornecimento e operação.
