A startup paulista Ideelab está desenvolvendo uma nova geração de bioinsumos para o controle de doenças em citros, com base no avanço do conhecimento sobre a comunicação molecular entre plantas e microrganismos. Com apoio do programa PIPE da FAPESP, a empresa aposta em tecnologias que integram pesquisa básica e aplicação prática para um dos setores mais vitais do agronegócio brasileiro.
O ponto de partida das pesquisas é o entendimento de que plantas e microrganismos interagem por meio de moléculas efetoras – peptídeos e proteínas que funcionam como sinais bioquímicos. Essas moléculas permitem que a planta reconheça se o organismo presente é um patógeno ou um aliado, ativando diferentes respostas fisiológicas.
Ao estudar o fungo Phytophthora parasitica, causador da gomose dos citros, os pesquisadores constataram que o patógeno dribla o sistema imunológico de plantas suscetíveis por meio dessas moléculas. Já em cultivares resistentes, a planta desenvolve uma segunda linha de defesa que impede a infecção. Essa diferenciação abriu caminho para o desenvolvimento de estratégias de controle mais eficientes.
Com base nesse achado, a empresa criou soluções que podem ir além do controle da gomose, abrangendo doenças como o greening (causado por Candidatus Liberibacter asiaticus) e os prejuízos causados por Xylella fastidiosa e Xanthomonas. Um dos diferenciais apontados pela Ideelab é o potencial das moléculas desenvolvidas para agir diretamente nos vasos condutores das plantas, onde os patógenos se alojam e os defensivos químicos tradicionais raramente chegam.
O desenvolvimento está atualmente em fase intermediária, com provas de conceito já realizadas. Os próximos passos incluem o aprimoramento de aspectos como estabilidade dos peptídeos, formas de aplicação e tempo de eficácia. Para isso, a empresa mantém um centro de inovação em Piracicaba e uma unidade de bioprocessos, além de estar finalizando a instalação de uma planta industrial em Cambé (PR).
Além do avanço técnico, a tecnologia tem vantagens ambientais claras. “É um produto com pegada de carbono baixa, não tóxico e que representa uma alternativa aos agroquímicos convencionais”, afirma Ronaldo José Durigan Dalio, fundador da Ideelab. Os bioinsumos da empresa são organizados por gerações tecnológicas, sendo as gerações 3 e 4 – compostas por metabólitos e moléculas efetoras – o foco atual de desenvolvimento.
Com planos de ampliação da atuação internacional, a Ideelab participará da feira VivaTech 2025, em Paris, um dos maiores eventos de tecnologia da Europa. A empresa também estabeleceu uma presença nos Estados Unidos, com a nomeação de um representante de negócios em Boston. O nome escolhido para a empresa – combinação de “idee” (ideia, em alemão) e “lab” – reflete essa ambição de internacionalização.
Os fundadores não descartam ampliar o escopo das aplicações para outras culturas agrícolas, como soja, algodão, milho, banana e morango. Também estão em andamento pesquisas voltadas ao controle de insetos vetores de doenças, como o psilídeo, transmissor do greening, e o bicudo-do-algodoeiro.
A combinação entre conhecimento científico e pragmatismo de mercado permitiu à Ideelab avançar com rapidez. De cinco pessoas no início do projeto, a equipe agora reúne 37 colaboradores, sendo 12 doutores. Mais do que soluções para a citricultura, a empresa projeta um novo paradigma de controle fitossanitário baseado em biotecnologia ambientalmente sustentável.
Fonte: Ideelab: biotecnologia para o controle de doenças em citros
