A Sabesp captou US$ 1,35 bilhão em blue bonds (cerca de R$ 7 bilhões pela cotação de câmbio citada) em uma operação apontada como a maior do mundo nessa categoria, de acordo com dados da Bloomberg e do Climate Bonds Initiative. Os títulos são direcionados a projetos ligados à água e esgoto, com foco em preservação e ampliação de acesso, e serão usados para apoiar as metas de universalização do saneamento no Estado de São Paulo.
A companhia abastece quase 30 milhões de pessoas em 375 municípios e opera hoje com 98% de cobertura em água tratada e 86% em coleta e tratamento de esgoto. O Marco Legal do Saneamento estabeleceu como objetivos nacionais alcançar 99% de acesso à água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033; a Sabesp afirma ter meta de cumprir os patamares quatro anos antes, em 2029.
A maior parte do capital levantado será direcionada a obras de esgoto, que incluem redes de coleta, ramais (ligações domiciliares), estações elevatórias e a modernização e expansão de estações de tratamento de esgoto. Entre os projetos citados está a estação de Barueri, descrita como uma das maiores da América do Sul, com investimentos estimados em cerca de R$ 5 bilhões para ampliar capacidade e implementar novas tecnologias.
Em Barueri, o desafio do destino do lodo aparece como um eixo técnico central. A Sabesp pretende empregar uma tecnologia para gerar biometano a partir do resíduo. A proposta é usar parte do biocombustível para suprir cerca de 40% do consumo de energia elétrica da operação e destinar outra parte ao processo de secagem do lodo, reduzindo o volume encaminhado a aterros sanitários.
Segundo Daniel Szlak, diretor financeiro e de relações com investidores da empresa, ainda existem etapas a cumprir, mas a companhia quer avançar para transformar o lodo em fertilizante ou produto semelhante, buscando mais circularidade na operação. Para profissionais de engenharia e saneamento, a sinalização é relevante: ela conecta investimento em infraestrutura a uma estratégia de redução de passivos e de aproveitamento energético dentro do próprio sistema de tratamento.
Uma parcela menor dos recursos será destinada a projetos de água. O 1% da população ainda sem acesso a água tratada equivale a 1,8 milhão de pessoas. A companhia projeta sair de 98% para 99% de cobertura, um avanço pequeno em percentual, mas com impacto direto sobre quem permanece fora do serviço, segundo o executivo, embora não seja o principal destino do capital nesta captação.
A emissão ocorreu dentro de uma estrutura de empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) conhecida como A-B loan, comum em operações de infraestrutura. Na transação, a tranche A do BID foi de US$ 150 milhões, com prazo de 12 anos (custo não divulgado), enquanto a tranche B foi colocada no mercado por meio dos blue bonds divididos em dois vencimentos: US$ 850 milhões até 2031, a 5,75%, e US$ 500 milhões até 2036, a 6,5%. Trata-se da segunda emissão desse tipo pela Sabesp: em julho de 2025, a empresa havia captado US$ 500 milhões, com prazo de 15 anos e taxa de 5,625%, em um contexto em que o plano de investimentos até 2029 prevê R$ 70 bilhões e, desde a privatização concluída em junho de 2024, foram levantados cerca de R$ 27 bilhões, principalmente via dívidas e financiamentos com multilaterais.
