Uma revisão científica publicada em janeiro de 2026 reúne evidências e limites práticos para redesenhar a produção de ruminantes a partir de sistemas mais circulares, combinando mudanças em alimentação, manejo de dejetos, novas biotecnologias e métodos de medição ambiental. O texto parte de uma tensão conhecida: esses sistemas sustentam milhões de famílias rurais e economias nacionais ao fornecerem alimentos densos em nutrientes, mas também estão associados a emissões de gases de efeito estufa, mudanças no uso da terra e poluição por nutrientes.
O artigo argumenta que a circularidade passa por integrar melhor lavouras e pecuária, reciclar nutrientes e valorizar subprodutos agrícolas, reduzindo a dependência de insumos que competem com a alimentação humana. Nessa lógica, a nutrição de precisão é tratada como alavanca central: formulações mais ajustadas ao animal e ao contexto local podem diminuir perdas e reduzir a intensidade de emissões. O estudo destaca que grande parte do metano entérico escala com o consumo de matéria seca e com a estrutura de consumo do rebanho, o que reforça a importância de eficiência alimentar em nível de sistema, e não apenas de intervenções pontuais.
Entre as ferramentas discutidas, a revisão detalha o uso de aditivos anti-metanogênicos. O 3-nitrooxipropanol (3-NOP) é descrito como um inibidor direto da metanogênese, com resultados consistentes em diferentes tipos de bovinos e já implantado comercialmente em mais de 70 países. O artigo também examina o potencial de algas do gênero Asparagopsis, que fornecem bromoformo capaz de reduzir metano em faixas elevadas em estudos; porém, ressalta limitações e riscos: em níveis altos de inclusão pode haver queda no consumo e na produção de leite, além de preocupações com variabilidade do composto, potencial de impacto sobre a camada de ozônio e desafios de cultivo em escala. A revisão menciona que resíduos de bromoformo não foram detectados em leite ou tecidos em inclusão moderada, mas pede mais estudos sobre efeitos de longo prazo no microbioma ruminal, saúde animal e segurança do produto.
O trabalho também aborda modificadores de rúmen como lipídios, taninos e saponinas, além do uso de nitratos como aceitadores alternativos de elétrons. A mensagem é cautelosa: há potencial de mitigação, mas o desempenho varia conforme fonte e dose, e podem surgir efeitos colaterais, como depressão de gordura do leite com excesso de lipídios ou riscos de toxicidade com nitratos se o manejo for inadequado. Para evitar “soluções que deslocam o problema”, a revisão insiste em avaliar impactos completos, inclusive quando extratos vegetais precisam ser transportados e processados, o que pode alterar a conta ambiental.
Na fronteira tecnológica, a revisão mapeia caminhos ainda experimentais, como edição gênica baseada em CRISPR para interferir na via da metanogênese em arqueias metanogênicas ou para modificar plantas forrageiras, aumentando lipídios ou metabólitos secundários. Também aponta rotas alternativas para produzir compostos halogenados sem depender de cultivo de algas, incluindo a produção de bromoformo por fungo de solo (Curvularia) e aplicações de bromoformo sintetizado em ensaios. Ao mesmo tempo, o texto sublinha as barreiras: complexidade regulatória para organismos geneticamente modificados, avaliação de risco ecológico e aceitação social. Um ponto crítico destacado é o risco de certas intervenções afetarem a digestibilidade de fibras, elevando a dependência de recursos comestíveis por humanos e enfraquecendo a circularidade.
Para medir ganhos e perdas, a revisão dá peso à avaliação de ciclo de vida e à modelagem mecanística e de fazenda inteira, que ajudam a quantificar trade-offs e co-benefícios. O artigo lista desafios metodológicos recorrentes: como alocar emissões entre múltiplos produtos (leite, carne, couro, dejetos, energia e fertilizantes), como incorporar sequestro de carbono no solo e como contabilizar a competição entre alimento e ração. Também discute limitações do uso de métricas tradicionais para metano e a necessidade de análises de sensibilidade com alternativas que reflitam a dinâmica temporal do aquecimento, especialmente em cenários de rebanhos estáveis versus em expansão.
No campo de implementação, a revisão aponta que a escala depende de políticas públicas e instrumentos financeiros que viabilizem adoção, em especial em regiões de baixa e média renda onde o artigo afirma que se origina mais de 80% das emissões associadas à pecuária. A análise menciona incentivos para biodigestão e energia renovável, padrões metodológicos e estruturas de monitoramento, reporte e verificação apoiadas por ferramentas digitais, mas ressalta assimetrias: conectividade, capital e infraestrutura tendem a favorecer sistemas intensivos. Para os tomadores de decisão, o recado é direto: sem desenho de políticas e finanças com inclusão, considerando mulheres, jovens e pequenos produtores,, parte relevante do potencial de mitigação e de geração de renda pode ficar restrita a poucos atores.
Fonte: Review: Sustainable Ruminant Production: Circular Systems, Nutrition, and Methane Mitigation
