Pesquisadores brasileiros identificaram o alto potencial da quitosana — um biopolímero extraído da casca de crustáceos — para a biorremediação de derramamentos de óleo, oferecendo uma alternativa mais ecológica aos métodos tradicionais utilizados em ambientes aquáticos contaminados.
A quitosana atua como material adsorvente altamente eficiente, graças à sua estrutura porosa e à presença de grupos químicos que favorecem a retenção de compostos oleosos. Modificações químicas recentes aumentaram sua seletividade e capacidade de remoção de petróleo em ambientes aquáticos, especialmente quando transformada em aerogéis ou incorporada a compósitos híbridos com nanotubos de carbono ou sílica funcionalizada.
No artigo, os autores destacam que o Brasil dispõe de vasta matéria-prima para a produção de quitosana devido à intensa atividade de carcinicultura e pesca artesanal, especialmente no Nordeste. A cadeia produtiva de camarão, por exemplo, pode gerar até 50% de resíduos com potencial para extração de quitina, o que posiciona o país de forma estratégica para o desenvolvimento de soluções em escala industrial.
Os autores apontam, no entanto, que a produção em larga escala esbarra em barreiras tecnológicas e logísticas. Os processos convencionais de extração — que envolvem uso intensivo de reagentes alcalinos e ácidos — apresentam desafios como corrosão de equipamentos, geração de efluentes e necessidade de padronização da matéria-prima. Além disso, há carência de infraestrutura para coleta e armazenamento de resíduos perecíveis, ausências regulatórias e pouca padronização do produto final.
Apesar dos entraves, os estudos destacam os benefícios ambientais e socioeconômicos da aplicação da quitosana. O uso do material está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, especialmente os ODS 12 (consumo e produção responsáveis), ODS 14 (vida na água) e ODS 9 (indústria, inovação e infraestrutura). Isso se deve à conversão de subprodutos descartáveis em insumos de valor agregado e à contribuição para a descontaminação ambiental, fomentando setores produtivos locais.
A pesquisa também abordou as inovações recentes em modificação química da quitosana, como a combinação com citral ou inclusão de nanopartículas, o que possibilita reutilização do material e maior estabilidade em ambientes salinos. Essas melhorias ampliam a eficiência de sorção e resistência dos materiais, tornando-os competitivos frente aos sorventes sintéticos utilizados atualmente.
No entanto, os autores alertam para a necessidade de estudos em escala piloto, avaliações de ciclo de vida e análises de custo-benefício. Tais iniciativas seriam cruciais para difundir a aplicação da quitosana como alternativa tecnicamente viável e economicamente competitiva. Investimentos em pesquisa translacional e políticas públicas voltadas à bioeconomia são vistos como elementos-chave para consolidar essa cadeia no cenário nacional.
Com um mercado global em expansão — estimado em US$ 47 bilhões até 2030 —, o estudo reforça que o desenvolvimento tecnológico no Brasil pode posicionar o país como produtor relevante de soluções sustentáveis no setor de biorremediação. A quitosana, ao reunir renovabilidade, biodegradabilidade e aplicação direta na contenção de desastres ambientais, emerge como uma ferramenta estratégica para integrar conservação ambiental, inovação tecnológica e desenvolvimento regional.
Fonte: USE OF CHITOSAN IN OIL SPILL BIOREMEDIATION: BRAZILIAN PRODUCTIVE AND BIOTECHNOLOGICAL POTENTIAL
