Mesmo sendo referência europeia em produção de biogás agrícola, a Alemanha enfrenta atualmente um processo de estagnação no crescimento deste setor estratégico. O estudo de Wojciech Ciechanowski e Mariusz Maciejczak, da Warsaw University of Life Sciences – SGGW, detalha as condições institucionais que permitiram o avanço inicial e os gargalos que hoje limitam o desenvolvimento das plantas de biogás no país.
Desde 2013, com a criação do Conselho da Bioeconomia e a implementação de estratégias nacionais, a política energética alemã tem incorporado metas ambiciosas para a transição para uma economia baseada em fontes renováveis. A energia gerada a partir da biomassa, principalmente resíduos agrícolas, é apontada como um meio de compensar a intermitência das fontes solar e eólica. De 2014 a 2023, o número de plantas de biogás aumentou mais de 1.160 unidades, somando hoje quase 10 mil instalações e 5.905 MW de capacidade instalada.
Apesar disso, o levantamento revela que o ritmo de crescimento do setor tem desacelerado. Enquanto em 2015 foram inauguradas 268 novas unidades, em 2023 foram registradas apenas 33. Embora a tecnologia tenha sido fundamental na redução das emissões e no equilíbrio da matriz de geração elétrica, o recuo é atribuível a mudanças regulatórias, à competição por uso do solo com outras culturas e a entraves no modelo de apoio econômico às novas plantas.
Parte dessa transformação resulta da revisão da Lei de Fontes Renováveis de Energia, modificada em 2023. A substituição do modelo de tarifas fixas por leilões para grandes instalações renováveis, incluindo biogás, visou reduzir a burocracia, mas também acabou limitando a atratividade para novos investimentos, sobretudo em projetos de maior escala. As pequenas instalações (até 750kW) continuam elegíveis a tarifas estáveis, mas seu impacto no sistema energético nacional é mais limitado.
Os autores apontam que o país se tornou, em 2023, importador líquido de eletricidade pela primeira vez desde 2002 — um sinal de alerta quanto à urgência de fontes despacháveis e estáveis, como o biogás. Isso é ainda mais crítico diante do abandono da energia nuclear e da redução no uso de gás natural após a crise do fornecimento provocado pela guerra na Ucrânia. Nesse cenário, as plantas de biogás, ao permitir o uso contínuo de energia, ganham relevância estratégica.
O artigo sugere que o futuro crescimento do setor alemão de biogás dependerá de políticas que incentivem o uso mais eficiente e diversificado da biomassa residual e agrícola, ao invés de concentrar-se na produção de energia a partir de culturas energéticas dedicadas. Outro eixo importante seria o desenvolvimento de modelos financeiros inovadores que aumentem a atratividade para investimentos privados e públicos.
A análise também levanta questões sobre a importância de tornar as políticas de apoio mais sensíveis às rápidas mudanças nas condições socioeconômicas e ambientais. Instrumentos que garantam segurança regulatória e planejamento de longo prazo são apontados como fundamentais para conter a estagnação atual.
A experiência alemã, embora marcada por importantes avanços, mostra os limites de um modelo que, ao atingir maturidade, precisa se reinventar. Para outros países que pretendem fortalecer sua bioeconomia energética, a lição é clara: políticas públicas eficazes exigem adaptação contínua e atenção ao uso sustentável dos recursos, especialmente quando a segurança energética e a descarbonização se tornam prioridades globais convergentes.
Para os engenheiros e decisores estratégicos no Brasil, o caso alemão oferece uma base sólida de aprendizados sobre a importância de combinar regulação eficaz com incentivos econômicos, inovação tecnológica e gestão sustentável de biomassa para transformar desafios ambientais e energéticos em oportunidades reais.
