Críticas à bioeconomia na Amazônia expõem desconexão com comunidades tradicionais

Bioeconomia chegou à Amazônia em um momento de crise sanitária, política e social que dificultou a inserção de vozes locais nos debates sobre o futuro da região. O artigo “BIOECONOMIA E SOCIOBIOECONOMIA: chegada de um conceito na Amazônia e sua distância do bem-viver das comunidades tradicionais” aponta que o conceito foi introduzido sem consulta efetiva às comunidades nativas, reforçando relações assimétricas de poder e aprofundando desigualdades históricas.

Baseado na observação participativa da elaboração do Plano de Bioeconomia do Pará e nos encontros regionais entre 2021 e 2023, o estudo analisa como a estratégia de bioeconomia ganhou tração em articulação com interesses empresariais e narrativas globais de sustentabilidade. No entanto, a ausência do designativo “socio” escancara o descompasso entre os discursos institucionalizados e a realidade vivida por quilombolas, ribeirinhos e povos indígenas. O conceito de “sociobioeconomia” passou a ganhar espaço como resposta crítica a essa lacuna.

Os autores destacam a realização do Fórum Mundial de Bioeconomia em Belém, em 2021, patrocinado por grandes corporações como Bayer, Cargill e JBS, e o simultâneo Encontro Amazônico da Sociobiodiversidade, onde lideranças dos povos da floresta contestaram a centralidade do mercado nas soluções apresentadas. A Carta da Amazônia 2021 expressa o recado direto: não há aceitação para estratégias pautadas apenas por lógica econômica e descoladas da realidade social e ambiental local.

Apesar disso, tanto o Plano Estadual de Bioeconomia do Pará como a Estratégia Nacional de Bioeconomia, instituída em 2024, ainda se ancoram em categorias tradicionais de desenvolvimento centradas na produção e no mercado, mesmo quando incluem menções à sociobiodiversidade. Pouco se fala em saneamento, segurança alimentar ou educação básica — pilares estruturantes para transformar a lógica de exclusão histórica na região.

O estudo também problematiza a estrutura do capitalismo e sua relação com o conceito de desenvolvimento sustentável, apontando que, ao longo de décadas, essa proposta tem mascarado a depredação dos ecossistemas e a concentração de renda. Segundo os autores, há uma apropriação da linguagem da sustentabilidade por setores econômicos que, na prática, mantêm lógicas de expropriação ambiental e exclusão social.

Como alternativa conceitual e ética, os autores propõem a valorização do bem-viver, filosofia de origem andina centrada na reciprocidade com a natureza e na valorização das relações coletivas. Esse paradigma, já praticado de forma autônoma por diversas comunidades amazônicas, contrasta diretamente com a acumulação capitalista e enfatiza a produção de bens com base em limites ecológicos e respeito aos ciclos naturais.

No mutirão, por exemplo, prática ancestral de trabalho coletivo descrita no texto, não há hierarquia e o objetivo não é o lucro, mas a cooperação e a celebração. Esses modos de vida são apresentados como respostas concretas às crises climática, econômica e social do presente, e não como traços folclóricos ou românticos.

O texto conclui que, embora as políticas públicas de bioeconomia e sociobioeconomia tragam avanços retóricos, elas permanecem inseridas em um sistema que prioriza a exploração dos recursos naturais como meio de geração de riqueza. Para a Amazônia, os autores defendem que só uma mudança estrutural poderá garantir um futuro viável, e essa transformação passa pelo reconhecimento das práticas já existentes nos territórios tradicionais, baseadas na ética do bem-viver.

A crítica se aplica também às estratégias voltadas às cidades: as populações urbanas das periferias amazônicas, como em Afuá, enfrentam vulnerabilidades semelhantes às dos povos da floresta. O aumento do preço do açaí, fenômeno impulsionado pela exportação, afeta diretamente a segurança alimentar nas periferias urbanas, demonstrando como as políticas de bioeconomia ainda não foram capazes de enfrentar as desigualdades de forma efetiva.

Em síntese, o estudo oferece uma reflexão importante sobre o distanciamento entre os discursos oficiais de sustentabilidade e as práticas de cuidado e reciprocidade já consolidadas entre os povos da Amazônia. A proposta de incorporar o social à bioeconomia, tornando-a de fato uma sociobioeconomia, é essencial para que as políticas públicas futuras estejam mais alinhadas aos direitos coletivos, à justiça ambiental e ao respeito efetivo às formas de vida locais.

Fonte: BIOECONOMIA E SOCIOBIOECONOMIA: chegada de um conceito na Amazônia e sua distância do bem-viver das comunidades tradicionais

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