Reflorestamento focado em carbono pode deixar biodiversidade para trás

Projetos de restauração florestal podem recuperar carbono sem reconstruir a diversidade de plantas da vegetação original. O risco foi destacado pelo pesquisador Ricardo Augusto Gorne Viani, da Universidade Federal de São Carlos, durante um encontro científico em Leiden, nos Países Baixos. Segundo ele, avaliar o sucesso apenas pelo carbono armazenado deixa de fora resultados importantes para a conservação e para funções como a regulação da água e a polinização agrícola.

A escolha das espécies ajuda a explicar essa diferença. Em um exemplo apresentado pelo pesquisador, mudas nativas plantadas no mesmo dia e sob condições de solo equivalentes tiveram desempenhos distintos: após dois anos, um cedro-rosa ainda tinha porte reduzido, enquanto um fumo-bravo superava dois metros, com flores e frutos. O ritmo de crescimento influencia o custo do plantio, o tempo necessário para sombrear o solo e a retenção de carbono, mas não deve ser o único critério de seleção.

Em levantamento conduzido na universidade a partir de registros da SOS Mata Atlântica, pesquisadores examinaram mais de mil plantios no bioma. Encontraram 423 espécies arbóreas utilizadas, diante de uma flora regional com mais de 4 mil espécies de árvores. Os projetos também repetiam composições semelhantes em diferentes regiões: entre si, os plantios se pareciam mais do que com as florestas nativas próximas.

A preferência por espécies que crescem rapidamente e têm sementes mais fáceis de obter e produzir em viveiros atende a necessidades práticas. Elas ajudam a formar cobertura vegetal e a conter gramíneas invasoras. O problema surge quando essa seleção reduz a presença de espécies de crescimento lento, plantas ameaçadas e árvores cujos frutos atraem animais dispersores de sementes.

O diagnóstico da paisagem determina quanto dessa diversidade pode voltar sem intervenção. Perto de fragmentos nativos, sementes transportadas pelo vento ou pela fauna podem enriquecer o plantio com o tempo; nesse caso, começar com menos espécies pode reduzir custos. Em áreas agrícolas isoladas e degradadas, a mesma estratégia tende a deixar lacunas permanentes, o que exige a introdução deliberada de uma variedade maior de plantas nativas.

No Cerrado, uma revisão de 111 estudos encontrou 39 que compararam áreas restauradas com ecossistemas preservados. O conjunto mostrou que biomassa e carbono podem se aproximar dos níveis da vegetação de referência enquanto a diversidade de plantas nativas permanece significativamente menor. Apenas 13 dos 111 estudos mediram, ao mesmo tempo, indicadores de carbono e biomassa e de diversidade vegetal, uma limitação para avaliar os resultados da restauração de forma integrada.

Com a meta brasileira de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, essas diferenças têm consequência para o planejamento e o monitoramento dos projetos. Viani defende decisões de plantio ajustadas à paisagem e a medição conjunta de carbono e biodiversidade. Ele também ressalta que restaurar florestas não substitui a redução rápida das emissões de gases de efeito estufa pela indústria e pelo setor de energia.

Fonte: Foco exclusivo em captura de carbono ameaça diversidade de plantas em projetos de reflorestamento

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