Rede Brasileira de Biologia Sintética busca transformar potencial científico em inovação estratégica

A biologia sintética tem avançado em ritmo acelerado no mundo, mas no Brasil esse desenvolvimento ainda enfrenta obstáculos estruturais conhecidos. Apesar de abrigar uma das maiores biodiversidades do planeta e dispor de sólida produção científica, o país permanece atrás de Estados Unidos, China e Europa na construção de uma base tecnológica e industrial robusta neste campo. O recente lançamento da Rede Brasileira de Biologia Sintética e a consolidação da Associação SynBioBR representam tentativas relevantes de alinhar os múltiplos atores brasileiros em torno de uma estratégia nacional integrada para a área.

Formada oficialmente em agosto de 2024 durante a primeira Conferência Brasileira de Biologia Sintética (CBBS), a Rede já congrega 32 grupos de pesquisa de 18 instituições distribuídas por todas as regiões do país. Ainda que a maioria esteja concentrada na região Sudeste, há participação significativa de centros no Norte (como a UFAM), Nordeste (Embrapa Petrolina), Centro-Oeste e Sul. Essa capilaridade geográfica fortalece o potencial da Rede para fomentar colaborações e difundir conhecimento técnico em território nacional.

Entre os projetos estruturantes figura o Repositório Brasileiro de Partes Biológicas, uma plataforma digital para compartilhamento de sequências genéticas, plasmídeos e cepas. Desenvolvido com apoio da organização internacional Asimov, o repositório é uma aposta para democratizar materiais essenciais de pesquisa — hoje muitas vezes importados com alto custo e grande demora.

O histórico da biologia sintética no Brasil é marcada por forte atuação estudantil. O país participa desde 2009 da competição internacional iGEM, com projetos de jovens de universidades como USP, UNICAMP e UFMG. Essa participação catalisou iniciativas educacionais como a Olimpíada Brasileira de Biologia Sintética e os clubes universitários com foco em pesquisa e divulgação. Tais iniciativas ampliaram o número de alunos capacitados na área, especialmente em instituições públicas.

Atualmente, 16 universidades brasileiras já oferecem disciplinas de biologia sintética na graduação e pós-graduação. Embora esse número seja expressivo — maior, por exemplo, do que o registrado no Canadá — o desafio agora é transformar a formação acadêmica em inovação tecnológica e geração de negócios. O relatório aponta que o Brasil tem cerca de 350 biotechs ativas, mas 95% delas não sobrevivem aos primeiros anos. Além disso, apenas 14% dessas empresas captaram investimentos de capital de risco.

Casos de sucesso existem. Empresas como Biomm, Cristália e startups como BioLinker e Vyro Biotherapeutics desenvolvem terapias e insumos baseados em engenharia biológica avançada. Na agricultura, a Embrapa lidera desenvolvimentos em cultivares transgênicas para resistência a pragas e alteração do perfil de óleos. E no setor energético, a liderança é da Granbio com produção de etanol de segunda geração a partir de leveduras geneticamente modificadas.

Contudo, o entrave estrutural permanece. Falta ao país infraestrutura crítica, como biofábricas em escala nacional — as chamadas biofoundries —, fornecedores locais de reagentes e DNA sintético, além de políticas que articulem regulação e incentivo à inovação. A legislação ambiental é reconhecidamente rigorosa — com destaque para o cumprimento do Protocolo de Nagoya — mas há um descompasso entre a proteção do patrimônio genético nacional e a agilidade necessária para desenvolver aplicações industriais a partir dele.

O artigo também destaca a dependência externa de insumos laboratoriais como um gargalo que encarece e retarda as pesquisas. Produtos podem levar semanas para serem entregues, o que compromete cronogramas de inovação. Além disso, as bolsas e salários de pesquisadores são mal remuneradas, desestimulando a permanência dos talentos mais promissores no país.

Com investimentos estratégicos — especialmente em infraestrutura, regulação alinhada à inovação e fomento à formação de especialistas — o Brasil pode transformar sua posição periférica em protagonismo. A Rede Brasileira é vista como um primeiro e importante passo para isso, ao articular cientistas, empresas e formuladores de política. Mas, como destaca o artigo, a janela de oportunidade exige ação imediata.

O avanço da biologia sintética é peça central para uma bioeconomia sustentável. O Brasil já integra os debates globais sobre o tema, inclusive no G20, e estabeleceu em 2024 a Comissão Nacional de Bioeconomia para construir um plano nacional. A atuação coordenada da Rede Brasileira, junto a ações governamentais que transcendam o ciclo político, pode posicionar o país como líder em soluções que combinam inovação tecnológica, conservação ambiental e soberania sobre seus recursos genéticos.

Fonte: Unveiling the Frontiers of Synthetic Biology in Brazil: Pioneering the National Synthetic Biology Network

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