Compostagem de bagaço de azeitona melhora estrutura e fertilidade de solos rasos no nordeste de Portugal, aponta tese

A perda de matéria orgânica do solo é descrita como uma das principais ameaças aos solos mediterrânicos e aparece com força no nordeste de Portugal, onde cerca de 70% dos solos são classificados como Leptossolos, rasos, pedregosos e com baixo teor de matéria orgânica. Nesse cenário, olivais dominam a paisagem agrícola e a cadeia do azeite gera grandes volumes de bagaço de azeitona de duas fases, um subproduto com elevada carga orgânica e fitotoxicidade associada ao seu teor de compostos fenólicos.

Uma tese dedicada ao tema avaliou a compostagem desse resíduo com outros materiais agroindustriais como rota para reduzir os entraves do seu gerenciamento, reciclar nutrientes e fortalecer práticas de economia circular. O trabalho testou compostos à base de bagaço de azeitona (OPC) e mediu, em diferentes etapas, impactos na qualidade física do solo e na provisão de funções relacionadas a serviços ecossistêmicos.

Na fase inicial, um ensaio em laboratório avaliou efeitos de curto prazo da aplicação dos OPCs sobre a estabilidade de agregados em dois solos contrastantes, Leptossolo e Fluvissolo. O resultado foi um ganho significativo de estabilidade, com destaque para solos com estrutura inicialmente pouco agregada, onde a melhora chegou a +20% em comparação ao controle, sugerindo potencial de resposta rápida em ambientes mais degradados.

Em seguida, um ensaio em vasos investigou efeitos de médio prazo nas propriedades do solo e no desempenho de plantas. Foram comparados três OPCs, OPC44, OPC31 e OPC25, diferenciados pela proporção inicial do resíduo, além de um corretivo orgânico comercial (HMC). As emendas foram incorporadas na camada 0–5 cm de um Leptossolo êutrico com 2,1% de matéria orgânica, em doses equivalentes a 10, 20 e 40 t·ha⁻¹, além do controle. O azevém anual (Lolium multiflorum) foi cultivado sob dois regimes de umidade controlada: 50–70% e >70% da capacidade de campo.

Após 138 dias, o estudo analisou um conjunto amplo de indicadores, incluindo matéria orgânica e fracionamento físico, carbono e nitrogênio totais, potássio extraível, fósforo Olsen, pH, capacidade de troca de cátions efetiva, densidade aparente, porosidade, capacidade de campo e agregados estáveis em água. A análise multivariada apontou que a dose teve maior influência sobre as propriedades do solo do que o tipo de composto. Matéria orgânica, carbono total, potássio extraível, pH e capacidade de troca de cátions aumentaram de forma proporcional às doses, e a dose mais elevada levou a ganhos de 13,3 g·kg⁻¹ de matéria orgânica e 8,4 g·kg⁻¹ de carbono total.

Em termos de atributos físicos, as emendas orgânicas reduziram a densidade aparente entre 8% e 15%, elevaram porosidade e capacidade de campo e aumentaram em cerca de ~20% os agregados estáveis em água, especialmente com OPC31 e OPC44. Na comparação com o HMC, os compostos à base de bagaço entregaram maior enriquecimento em potássio. O trabalho também descreve reforço na proteção física e química da matéria orgânica: o carbono derivado do composto apareceu primeiro em frações menos protegidas, mas com transferência progressiva para pools mais estáveis, com acúmulo em diferentes classes de agregados.

Ao integrar funções do solo e serviços ecossistêmicos, a tese conclui que a aplicação de composto de bagaço de azeitona favorece produtividade vegetal, ciclo e retenção de nutrientes, melhora de estrutura e estabilidade, sequestro de carbono e regulação da água. No recorte de solos mediterrânicos degradados, os resultados posicionam a compostagem do resíduo como uma alternativa técnica para valorizar um subproduto com desafios ambientais e, ao mesmo tempo, apoiar práticas agrícolas mais sustentáveis e adaptadas ao clima.

Fonte: Valorização de resíduo de bagaço de azeitona como condicionador orgânico do solo e implicações para a sua qualidade física

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