Repensar os sistemas de produção animal sob a ótica da circularidade é uma das estratégias apontadas como essenciais para uma bioeconomia resiliente e sustentável. Um novo guia publicado pela Parceria LEAP da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) oferece métricas e diretrizes para inserir práticas circulares no setor pecuário.
Um dos principais aportes dos sistemas pecuários na bioeconomia circular está na capacidade de transformar biomassa não comestível — como forragens, resíduos agrícolas e subprodutos da indústria alimentícia — em alimentos de alto valor nutricional, fertilizantes orgânicos e energia renovável. Essa função converte o que seria resíduo em valor econômico e ecológico, como ressaltam os autores T. A. McAllister, Barbara Renate Amon e Philippe Becquet.
Além da conversão de biomassas de baixo valor, a pecuária também desempenha papel relevante na reciclagem de nutrientes, redução da competição entre alimento e ração e melhoria da saúde do solo, elementos fundamentais para o fechamento dos ciclos de nutrientes e o fortalecimento da segurança alimentar global.
Uma dimensão menos visível, mas estratégica, discutida no guia é o uso de subprodutos animais (ABP — animal by-products). Hides, ossos e gorduras têm aplicações em setores diversos como cosméticos, bioenergia e farmacêutica. Essa valorização cruzada com outras indústrias bio-baseadas amplia o escopo da circularidade além da cadeia alimentar e estabelece interfaces com a visão do bio-impacto da bioeconomia.
Outro ponto destacado é a produção de biogás a partir de esterco animal, o que não apenas fornece energia limpa, mas também mitiga emissões de gases de efeito estufa. A combinação desses processos cria sistemas pecuários menos dependentes de fontes fósseis e mais integrados a ciclos bioenergéticos locais, especialmente em regiões rurais.
O documento também oferece uma abordagem sistemática de métricas e indicadores ambientais para avaliar essas contribuições. Tais indicadores servem para orientar produtores, fornecedores, organizações agrícolas e até mesmo o setor varejista a melhorar o desempenho ambiental de suas atividades.
Parte expressiva do relatório aborda os desafios regulatórios e políticos relacionados à adoção dessas práticas. A infraestrutura institucional para tratar de subprodutos e resíduos ainda é limitada em muitos países. Além disso, o potencial da pecuária dentro da bioeconomia circular ainda é subestimado por políticas que tratam o setor majoritariamente como emissor líquido de carbono, ignorando sua função de reciclador de materiais e nutrientes.
Segundo os autores, o guia pode servir como
instrumento para tomadores de decisão que visam formular políticas alinhadas às estratégias de bioeconomia circular no setor pecuário. Assim, mesmo atores não ligados diretamente à produção de animais, como municípios e agências de regulação ambiental, podem beneficiar-se das diretrizes apresentadas ao desenhar projetos de integração setorial baseados em reciclagem e aproveitamento de resíduos.
Em síntese, a publicação reconhece a dupla natureza do setor pecuário: fonte de impactos ambientais e agente potencial de soluções sustentáveis. Ao redesenhar fluxos de biomassa e nutrientes, os sistemas pecuários podem cumprir papel central na construção de um modelo econômico orientado pela circularidade, respondendo não apenas à demanda por alimentos, mas também aos imperativos ambientais e energéticos contemporâneos.
