Um estudo publicado na revista Forests apresenta uma avaliação financeira abrangente dos serviços ecossistêmicos ligados ao sequestro e armazenamento de carbono fornecidos pelas florestas húngaras. Os pesquisadores estimaram que os estoques de carbono em florestas, solos e produtos de madeira colhida correspondem a 1289 milhões de toneladas de CO2 equivalente, com um valor monetário superior a 64 bilhões de euros. Esse valor representa um passivo climático teórico caso todo esse carbono fosse liberado na atmosfera.
Além dos estoques totais, a pesquisa calculou que as florestas da Hungria sequestram anualmente 6,7 milhões de toneladas de CO2, adicionadas a 0,9 milhão de toneladas capturadas em produtos de madeira de longa duração, totalizando um valor anual de 380 milhões de euros. A substituição de materiais e energias fósseis por madeira e biomassa evitaria emissões adicionais de 4,5 milhões de toneladas de CO2 por ano, o que representa um valor de mitigação estimado em 453 milhões de euros.
O potencial de monetização dessas contribuições climáticas foi avaliado com base em dois cenários alternativos de valorização no mercado voluntário de carbono (VCM). O primeiro, voltado ao não corte de florestas maduras – conhecido como manejo florestal melhorado (IFM) – teria um valor anual de 21 milhões de euros. O segundo, que implica colheita e utilização da madeira na construção civil, alcançaria até 90 milhões de euros por ano, se intensificado.
Esses resultados sustentam duas conclusões principais do estudo: o valor do estoque total de carbono supera expressivamente os serviços anuais de sequestro e substituição, e os ganhos possíveis via mercados de carbono são limitados diante do potencial ecológico real. Isso evidencia uma desconexão entre valor ecológico e estímulos econômicos viáveis sob as atuais regulamentações do VCM e da estrutura de certificação de remoção de carbono da União Europeia.
Outro destaque da pesquisa foi a valorização da substituição de materiais e fontes de energia fósseis – uma função frequentemente negligenciada. Produtos florestais, como madeira para construção e biomassa energética, desempenham papel decisivo ao evitar emissões, especialmente dentro dos marcos de uma bioeconomia circular alinhada às estratégias climáticas da Europa.
A análise comparativa entre as duas abordagens de crédito de carbono sugere que, embora o IFM promova conservação e benefícios ecológicos, a armazenagem de carbono em madeira na construção oferece maior valor de mercado e contribuição climática. No entanto, a atual regulamentação da UE não permite combinar esses métodos em um mesmo projeto, limitando o uso de estratégias integradas de mitigação.
A pesquisa também chama atenção para o papel dos solos florestais, que armazenam mais carbono do que a própria biomassa aérea. Contudo, os autores alertam para a falta de dados atualizados sobre dinâmicas de carbono do solo, o que impede um monitoramento efetivo e inclusão total desses fluxos nos sistemas de verificação e nos mercados.
Entre as recomendações do estudo está a need to reconhecer o valor dos efeitos de substituição nas políticas climáticas, priorizar o uso de madeira durável, fomentar a inovação em manejo florestal sustentável e melhorar o monitoramento do carbono no solo. O estudo também propõe incorporar sistematicamente a valorização econômica dos serviços ecossistêmicos nos processos de planejamento florestal nacional, visando decisões mais equilibradas entre objetivos econômicos, ecológicos e climáticos.
Por fim, os autores destacam que comunicar de forma eficaz o papel das florestas na mitigação climática e nos ciclos de carbono é essencial para gerar apoio público e político. A clarificação do potencial de armazenamento de carbono via uso sustentável da madeira pode ajudar a mudar a percepção de que o corte de árvores é, por si só, ambientalmente negativo.
