Revisão sistemática aponta desequilíbrio na pesquisa sobre a cadeia do açaí: saúde e tecnologia avançam, mas trabalho e governança ficam à margem

Uma revisão sistemática publicada sobre a cadeia do açaí (gênero Euterpe) analisou como a produção científica tem se conectado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e concluiu que o debate acadêmico segue concentrado em saúde, tecnologia e meio ambiente, com baixa presença de estudos sobre trabalho, equidade e governança. O levantamento selecionou 99 artigos revisados por pares publicados entre 2010 e 2025, com recorte em Brasil e países vizinhos, buscando identificar tendências, lacunas e necessidades futuras para orientar uma agenda de sustentabilidade mais completa na cadeia.

O mapeamento mostra que quase metade das publicações relaciona o açaí ao ODS 3 (Saúde e bem-estar), enquanto ODS 12 (Consumo e produção responsáveis) e ODS 15 (Vida terrestre) aparecem na sequência. Em contraste, objetivos ligados a dimensões sociais e institucionais, como educação, igualdade de gênero, trabalho decente, redução de desigualdades, governança e parcerias, foram descritos como sub-representados no conjunto analisado. Para os autores, o resultado indica uma paisagem de pesquisa fragmentada, na qual a sustentabilidade tende a ser tratada mais como atributo técnico do produto do que como arranjo socioeconômico e institucional.

A revisão seguiu o protocolo PRISMA e usou as bases Scopus e Web of Science. Para selecionar estudos com “influência científica” consolidada, aplicou-se um filtro de densidade de citação ≥ 4, combinado a uma busca complementar para capturar artigos de ciências sociais que poderiam ficar de fora por assimetrias de citação entre áreas. Dos 1.094 registros inicialmente identificados, após remoção de duplicatas e triagens, restaram os 99 trabalhos analisados, com síntese bibliométrica e qualitativa.

No recorte por áreas, a produção se concentrou em ciência e tecnologia de alimentos (27 artigos), ciências ambientais (20) e engenharia (20), refletindo um foco recorrente na polpa e, cada vez mais, na biomassa do fruto. O texto destaca que as sementes representam 85% do fruto, mas que estratégias integradas de economia circular ainda são raras, apesar de existirem estudos sobre usos como energia, carvão, adsorventes e insumos. A leitura crítica aponta que parte da inovação permanece compartimentada: soluções para “um subproduto por vez” não necessariamente se traduzem em sistemas integrados de aproveitamento e redução de impactos ao longo da cadeia.

Em saúde, a literatura revisada reforça a valorização do açaí por seus compostos bioativos, incluindo antioxidantes, além de propriedades antimicrobianas e anti-inflamatórias reportadas em diferentes estudos, e mapeia um conjunto relevante de artigos sobre caracterização química, processos de extração e potenciais aplicações. Ao mesmo tempo, a revisão indica lacunas sobre como perfis de compostos fenólicos se traduzem em efeitos populacionais e quais condições e concentrações seriam necessárias para benefícios consistentes. Também chama atenção para preocupações de saúde pública relacionadas ao processamento: o risco citado está associado ao manuseio e higiene inadequados durante a produção da polpa, e não ao fruto em si.

O maior alerta do trabalho recai sobre o “lado humano” da cadeia. A revisão afirma que condições de trabalho, inclusão de mulheres e partilha equitativa de benefícios aparecem pouco na pesquisa, apesar de serem apontadas como críticas. O texto menciona gargalos que vão da colheita, incluindo a atividade de peconheiros, descrita como especializada e de risco, com necessidade de treinamento e equipamentos de proteção, até infraestrutura e tecnologia para transporte e processamento. Também é mencionado que a colheita é enquadrada como atividade perigosa em discussões sobre trabalho infantil, exigindo mecanismos que conciliem proteção e realidades culturais nas comunidades.

Ao olhar para a geografia e instituições, a amostra tem predominância de estudos no Brasil (44), com foco majoritário em Euterpe oleracea (89), além de trabalhos com Euterpe edulis (22) e Euterpe precatoria (12). Entre as instituições destacadas, a Universidade Federal do Pará aparece como um polo relevante, acompanhada por Embrapa Amazônia Ocidental e o Museu Emílio Goeldi. A revisão conclui que, para alinhar inovação e sustentabilidade ao longo da cadeia, a agenda científica precisaria avançar em estudos comparativos entre espécies e biomas, e sobretudo incorporar com mais força temas de governança, equidade e meios de vida de comunidades que sustentam a produção.

Fonte: Açaí (Euterpe spp.) and the Sustainable Development Goals: a systematic review of innovations, gaps, and challenges in the “purple gold” bioeconomy

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