Uma monografia desenvolvida na Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo, reúne evidências da literatura sobre os principais impactos ambientais associados à cadeia do denim e discute como a avaliação de ciclo de vida pode orientar escolhas técnicas com potencial de reduzir consumo de recursos e emissões ao longo do processo produtivo. O trabalho foi elaborado no curso de Engenharia Ambiental e tem orientação do professor Marcelo Montaño.
A pesquisa parte da constatação de que o setor têxtil combina alta relevância econômica e social com pressão significativa sobre recursos naturais. A monografia cita dados do setor no Brasil: em 2023, a cadeia têxtil e de confecção registrou cerca de 1,30 milhão de empregos formais diretos e impacto sobre 8 milhões de pessoas ao considerar empregos indiretos e efeito-renda; aproximadamente 75% da mão de obra direta é feminina. No mesmo ano, a produção têxtil foi de cerca de 2 milhões de toneladas e o faturamento da cadeia chegou a R$ 203,9 bilhões, com estimativa de R$ 215 bilhões para 2024.
No recorte do denim, o estudo destaca que o tecido é tradicionalmente feito a partir de algodão e tingido com índigo, duas frentes que, segundo a revisão, concentram parte relevante da carga ambiental. O cultivo do algodão aparece como etapa crítica pelo uso de insumos e pela relação com consumo hídrico; o texto menciona ainda que o cultivo utiliza parcela desproporcional de defensivos, citando que o algodão responde por cerca de 25% dos inseticidas usados no mundo. Na indústria, o levantamento aponta o peso das operações de tinturaria e acabamento, com referência a uma faixa de 50 a 100 litros de efluentes por quilo de tecido produzido nessas etapas.
O tingimento com índigo é descrito como um gargalo pela química do processo e pela baixa fixação do corante, o que amplia a geração de efluentes. A monografia cita estimativas de uso anual de 50 a 60 mil toneladas de índigo sintético na indústria global de denim, associadas a volumes elevados de insumos auxiliares, incluindo aproximadamente 84,5 mil toneladas de hidrossulfito de sódio e 53,5 mil toneladas de soda cáustica. A revisão também reúne descrições de contaminantes presentes em efluentes do processo, como pH elevado, altas cargas de matéria orgânica e sais, além de compostos que dificultam o reaproveitamento da água.
Além da fábrica, o trabalho aponta que o ciclo de vida do denim continua gerando pressão ambiental na fase de uso, ao mencionar a liberação de microfibras e contaminantes no efluente doméstico durante lavagens, conectando o desempenho ambiental do produto às escolhas de materiais e aos processos industriais anteriores. Na etapa final de manufatura, a revisão também chama atenção para a lavanderia industrial e efeitos visuais do jeans, tradicionalmente obtidos por processos mecânicos e químicos, como áreas de alto consumo de água e de insumos.
Para organizar esse quadro complexo, a monografia adota como eixo a ACV e descreve seu uso para mapear entradas e saídas ao longo das etapas, do cultivo e processamento do algodão à confecção, distribuição, uso e destinação. O texto também menciona que a Política Nacional de Resíduos Sólidos reconhece a ACV como recurso relevante para estudar consequências ambientais dos processos produtivos. Na prática, a proposta é usar a abordagem para identificar onde estão os maiores impactos e, a partir daí, priorizar intervenções técnicas e de gestão.
Entre as oportunidades levantadas na revisão, o estudo destaca medidas como o uso de algodão orgânico ou algodão reciclado, processos de tingimento mais eficientes e estratégias de reaproveitamento de resíduos têxteis. O texto também registra a incorporação de alternativas como laser e ozônio em etapas de acabamento e lavanderia, citadas como rotas para reduzir consumo de água e produtos químicos. Ao articular essas frentes com práticas de economia circular e bioeconomia, a monografia defende que a reinserção de resíduos e a valorização de subprodutos podem apoiar a transição do setor para modelos mais sustentáveis, com efeitos sobre competitividade e inovação.
