Uma análise abrangente dos Planos de Desenvolvimento Territorial (PDTs) para o período 2024–2027, realizada em 11 municípios do Valle del Cauca, Colômbia, revelou uma contradição estrutural entre o cumprimento das metas de desenvolvimento sustentável e a permanência de estratégias que violam os limites planetários. Embora haja avanços na incorporação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), sobretudo nos ODS 2, 11 e 13, o estudo aponta que os modelos atuais de urbanização, agricultura, infraestrutura e industrialização seguem padrões lineares que comprometem a sustentabilidade de longo prazo da região.
A pesquisa avaliou os impactos ambientais nos municípios de Buenaventura, Candelaria, Cartago, Florida, Guadalajara de Buga, Jamundí, Palmira, Pradera, Santiago de Cali, Tuluá e Yumbo, focando em cinco ODS prioritários: pobreza, fome, água e saneamento, crescimento econômico e cidades sustentáveis. Para cada um, foram analisados seus efeitos sobre os limites planetários — especialmente clima, uso de água doce, mudanças de uso da terra e fluxos biogeoquímicos de nitrogênio e fósforo.
Os resultados indicam que iniciativas como construção de moradias populares, expansão agrícola intensiva, ampliação de infraestrutura urbana e implantação de complexos industriais contribuem para emissões crescentes de gases de efeito estufa, declínio da cobertura vegetal, saturação de corpos d’água com nutrientes e deterioração da qualidade do solo. Em muitos casos, esses mesmos projetos, concebidos para cumprir metas sociais e econômicas dos ODS, são os principais catalisadores da violação dos limites planetários.
Entre os efeitos mais críticos, destaca-se a superação do limite seguro de emissões per capita de CO2: a média regional ultrapassa em 56,3% o valor definido como seguro, posicionando a pegada climática da região no “zona de perigo”. A conversão de terras naturais em áreas agrícolas e urbanas também se aproxima da transgressão do limite de mudança do uso da terra. Nos fluxos de nitrogênio e fósforo, embora ainda dentro da zona de incerteza, o elevado uso de fertilizantes em monoculturas ameaçam deslocar esses indicadores rapidamente para níveis críticos. Somente o consumo de água doce permanece em níveis considerados seguros, graças à disponibilidade hídrica do rio Cauca.
O levantamento aponta ainda disparidades significativas entre os municípios. Candelaria e Palmira mostram maior alinhamento com os ODS, enquanto localidades como Florida, Pradera e Buenaventura apresentam baixa integração. Além disso, nenhum dos municípios incluiu políticas formais de apoio à meta 8.1, relacionada ao crescimento econômico sustentado, e muitos ignoraram ou abordaram de forma superficial metas vinculadas à erradicação da pobreza e ao acesso à moradia adequada.
Como saída, os autores propõem uma reformulação da abordagem territorial, com base no conceito de BiodiverRegión: uma estratégia de governança ecológica regional integrada. Essa visão defende a transição para uma economia bioeconômica regenerativa, pautada em infraestruturas verdes, tecnologias de baixo carbono, soluções baseadas na natureza e na restauração de ecossistemas urbanos e rurais. Cidades como Santiago de Cali devem assumir posição de liderança, adotando planejamento urbano centrado na conservação da biodiversidade e na resiliência climática.
Essa nova trajetória implica na inclusão de tecnologias de reúso de água, sistemas agroecológicos urbanos, monitoramento da biodiversidade com participação cidadã e na criação de hubs regionais de bioeconomia. Cada município deve adaptar esse arcabouço à sua realidade local, combatendo as causas estruturais de degradação ambiental e assegurando o respeito aos limites ecológicos.
Por fim, o estudo chama a atenção para a importância de uma governança intermunicipal robusta, com capacidade institucional ampliada, sistemas de financiamento sustentável e uma abordagem de planejamento integrada. A proposta de adotar a economia da rosquinha — equilibrando justiça social com restrições ecológicas — representa uma via estratégica para alcançar prosperidade dentro dos limites do planeta, condição essencial para a sustentabilidade do Valle del Cauca nas próximas décadas.
