Um artigo publicado em fevereiro de 2026 na Revista Aracê revisa a literatura recente (2020–2025) para identificar onde a biotecnologia tem se concentrado na bioeconomia amazônica e quais são os gargalos científicos e institucionais para transformar potencial biológico em produtos e processos com viabilidade econômica e compromissos ambientais. A análise, de caráter qualitativo, busca integrar dimensões tecnológicas, ambientais, sociais e econômicas associadas ao desenvolvimento regional.
Segundo a revisão, a produção científica tende a se organizar em três frentes: biocombustíveis a partir de biomassa lignocelulósica, bioprospecção de compostos bioativos e desenvolvimento de enzimas microbianas e outros bioprodutos de maior valor. O texto destaca que resíduos do processamento de açaí, cupuaçu, castanha-do-pará e mandioca aparecem como matérias-primas com potencial para rotas fermentativas e enzimáticas, colocando a valorização de resíduos agroindustriais como uma oportunidade concreta para criar cadeias produtivas locais.
No recorte florestal, o artigo chama atenção para a quantidade de resíduos gerados pela indústria madeireira e menciona que serragem, cascas e galhos podem alimentar alternativas como pellets energéticos, painéis de fibra, biocarvão e até insumos para biorrefinarias. A revisão também aborda o papel do fracionamento de biomassa como etapa crítica para ampliar rendimentos e viabilizar rotas industriais, citando processos que buscam separar componentes como celulose, hemicelulose e lignina para diferentes saídas tecnológicas.
Ao tratar de bioprospecção, o estudo enfatiza a necessidade de critérios éticos e de governança: consentimento prévio informado, repartição de benefícios e respeito aos direitos de comunidades tradicionais e à propriedade intelectual coletiva, em consonância com a Convenção sobre Diversidade Biológica e a legislação brasileira sobre acesso ao patrimônio genético. A revisão aponta que, sem esses mecanismos, iniciativas podem perder legitimidade social e enfrentar disputas sobre direitos e benefícios associados ao uso de recursos biológicos e conhecimentos vinculados.
Entre os obstáculos para sair do laboratório e chegar à escala industrial, o artigo elenca déficits de infraestrutura de pesquisa (como a escassez de laboratórios equipados), falta de profissionais especializados e baixa articulação entre universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo. Também aparece a necessidade de mecanismos de avaliação mais robustos para propostas e projetos, considerando não apenas a viabilidade técnico-econômica, mas também impactos ambientais, direitos e relevância social, com sugestão de arranjos como comitês multidisciplinares envolvendo ciência, gestão ambiental e representação social.
O texto ainda discute, no plano das ferramentas, como geotecnologias e análise de dados ambientais podem orientar a identificação de áreas prioritárias para pesquisa e reduzir riscos ao mapear hotspots de biodiversidade, caracterizar solos e apoiar a avaliação de serviços ecossistêmicos. Em paralelo, menciona tecnologias digitais como blockchain e inteligência artificial como instrumentos com potencial para rastreabilidade, certificação e monitoramento, inclusive para registrar transações e reforçar transparência em cadeias de valor e em processos de validação e governança do conhecimento.
Nas conclusões, os autores defendem que consolidar uma trajetória sustentável para a bioeconomia amazônica depende de inovação tecnológica, arranjos institucionais, formação de recursos humanos e políticas públicas orientadas por justiça social, respeito a conhecimentos tradicionais e conservação da biodiversidade. A revisão também indica lacunas: concentração de estudos em alguns temas (como biocombustíveis) e insuficiência de evidências sobre impactos sociais e ambientais de longo prazo, além de limites inerentes ao uso exclusivo da literatura disponível, que pode não capturar plenamente conhecimentos não documentados ou inovações mantidas sob sigilo industrial.
Fonte: BIOTECNOLOGIA APLICADA À BIOECONOMIA AMAZÔNICA: POTENCIAL E DESAFIOS CIENTÍFICOS
