Curso de graduação no MIT tenta aproximar engenharia e ciências sociais para formar profissionais da bioeconomia

Um novo curso de graduação do Massachusetts Institute of Technology (MIT) foi criado para enfrentar um gargalo recorrente em setores emergentes: a distância entre inovação tecnológica e as condições sociais, políticas e regulatórias que determinam se uma tecnologia chega, e como chega, à vida real. A disciplina STS.059 (The Bioeconomy and Society), oferecida pela primeira vez no outono de 2025, propõe uma formação “holística” ao reunir, em sala de aula, debates de engenharia, humanidades e ciências sociais em torno de desafios práticos.

A disciplina é coofertada por Mark Bathe, professor de engenharia biológica, e Robin Wolfe Scheffler, professora associada na área de ciência, tecnologia e sociedade. Segundo os docentes, o modelo de coensino busca conectar perspectivas que normalmente correm em paralelo: enquanto a engenharia tende a olhar para o futuro e para a escalabilidade, a história e as ciências sociais ajudam a tornar visíveis condicionantes como contextos institucionais, trajetórias passadas e disputas de interesse que moldam a adoção de tecnologias.

O curso foi desenvolvido com apoio de um financiamento da MIT Energy Initiative e dá continuidade a um projeto do SHASS+ Connectivity Fund, ligado ao MIT Human Insight Collaborative (MITHIC), que incentiva conexões entre faculdades e escolas do instituto em torno de perguntas comuns. Na leitura de Scheffler, iniciativas desse tipo criam as condições para que docentes e estudantes direcionem energia interdisciplinar a resultados e soluções; para Bathe, o mecanismo também abre espaço para exploração, geração de ideias e valorização da amplitude na formação.

Na prática, o programa parte do pressuposto de que os dilemas tratados não cabem em um único departamento. Entre os temas trabalhados estão pesquisa e desenvolvimento, estratégia de investimento, formação de força de trabalho, conscientização e aceitação pública de produtos de base biológica, segurança e ética, o uso de inteligência artificial, proteção ambiental e equidade social. Ao longo do semestre, estudantes de diferentes áreas foram organizados em grupos para investigar desafios, com a composição das equipes mudando periodicamente para testar dinâmicas e ângulos de análise.

Alunos relatam que o formato ampliou a compreensão sobre os “atores” que influenciam a ciência. Dominique Dang, estudante de ciência da computação e biologia molecular, diz ter passado a considerar com mais clareza o papel do contexto histórico, do impacto socioeconômico e de exigências regulatórias. Já Heather Jensen, da engenharia biológica, destacou que o exercício de pesquisar fatores além da tecnologia foi “novo e refrescante”, especialmente para quem pretende atuar em temas como biorremediação e precisa avaliar viabilidade econômica e impactos potenciais e reais.

O curso também insere a discussão em um ambiente político que pode mudar rapidamente. Os professores observam que, nos Estados Unidos, há hoje investimento e apoio bipartidários por causa de efeitos esperados em populações urbanas e rurais e em segurança nacional, mas reconhecem que ventos contrários podem surgir. Para eles, o setor precisa demonstrar valor sem perder de vista o elemento humano: “o núcleo de qualquer indústria é a força de trabalho”, defendeu Bathe, enquanto Scheffler apontou a necessidade de formar estudantes capazes de resolver problemas de forma efetiva, conectando técnica e contexto.

Na estratégia pedagógica, palestrantes convidados funcionaram como pontes adicionais entre áreas. Entre os nomes citados estão Chris Love, que tratou de biomanufatura de medicamentos para produção escalável, de baixo custo e no ponto de atendimento; David Des Marais, com pesquisas em engenharia genética de plantas voltadas a aumento de produtividade e resistência a secas e patógenos; Victor Seow, que discutiu dimensões políticas e econômicas do consumo de energia a partir do livro “Carbon Technocracy”; e Ellan Spero, que apresentou o movimento de chemurgy do início do século 20, dedicado a materiais industriais derivados de produtos agrícolas ou resíduos.

Fonte: Bridging science and society in the emerging bioeconomy

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