Cooperativas impulsionam bioeconomia inclusiva no Pará e ampliam renda em até 48%

Apesar de promissora, a bioeconomia ainda não conseguiu gerar, de forma consistente, melhorias concretas na vida de populações locais da Amazônia. Uma pesquisa conduzida na PUC-SP evidencia, no entanto, que o cooperativismo pode ter um papel decisivo para reverter esse quadro no Estado do Pará.

O estudo, de natureza qualitativa, analisou três cooperativas paraenses ligadas à bioeconomia: CAMTA em Tomé-Açu, CCAMPO na região de Paragominas e COOPATRANS no oeste do estado. A partir de entrevistas com cooperados, dirigentes e técnicos, foi possível identificar ganhos efetivos nos âmbitos socioambiental, técnico, logístico e econômico-financeiro.

Dentre os impactos destacados, destacam-se a adoção de práticas produtivas sustentáveis, como Sistemas Agroflorestais (SAFs) e a regeneração de áreas degradadas; maior protagonismo feminino; ampliação do acesso à assistência técnica; aumento da renda dos cooperados; e valorização de produtos locais a partir da sua marca e origem.

O ganho financeiro médio relatado por cooperados foi de 48% superior em operações em que atuaram com apoio da cooperativa, indicando o potencial desses sistemas para melhorar o padrão de vida de agricultores familiares e extrativistas. Embora a pesquisa não tenha se debruçado sobre métricas quantitativas sistematizadas, devido à informalidade das práticas produtivas, as percepções relatadas coincidem em relatar melhorias palpáveis.

Entre os obstáculos estruturais enfrentados pela sociobioeconomia amazônica estão: dificuldades técnicas e regulatórias para o extrativismo; gargalos de infraestrutura e financiamento; e desafios sociais como a baixa qualificação da mão de obra local. Ainda que esses gargalos sejam amplos e complexos, as cooperativas têm conseguido enfrentar parte deles ao fornecer orientação técnica, organizar a produção e promover a inclusão produtiva.

A autora do estudo aponta que, mesmo em um contexto onde políticas públicas ainda carecem de alinhamento com realidades locais, as cooperativas atuam como importantes interfaces entre comunidades tradicionais e as cadeias de valor da bioeconomia. Elas facilitam não só o escoamento da produção, como também a capacitação técnica dos cooperados, fortalecendo o papel social dessas organizações.

O trabalho destaca que inserir as cooperativas nos instrumentos de fomento — como programas de crédito e incentivos à inovação — pode amplificar os efeitos positivos já observados. A adoção de políticas específicas que reconheçam o papel das cooperativas como agentes do desenvolvimento pode estruturar o setor e torná-lo mais resiliente.

Como perspectiva futura, a autora recomenda a realização de estudos longitudinais que acompanhem experiências cooperativas desde sua formação, permitindo comparações mais robustas e embasadas. Ademais, propõe-se o aprofundamento do diálogo institucional com atores públicos e privados que estão desenhando as políticas de bioeconomia na região.

Segundo o estudo, o Pará — caracterizado por altos índices de informalidade, baixo dinamismo econômico e forte dependência de programas sociais — pode ter na bioeconomia, estruturada por meio do cooperativismo, um caminho possível para amadurecer um modelo econômico mais justo e ambientalmente equilibrado.

Para alcançar esse potencial, será essencial fortalecer o ecossistema de negócios da bioeconomia amazônica com a inclusão de cooperativas como protagonistas em políticas públicas, projetos de investimento e estratégias de desenvolvimento regional sustentável.

Fonte: Cooperativas de bioeconomia: um estudo sobre suas contribuições para a inclusão produtiva e o desenvolvimento sustentável no Estado do Pará

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