A biotecnologia marinha tem despertado amplo interesse na agenda da bioeconomia azul, com ênfase em compostos bioativos extraídos de organismos oceânicos. Os oceanos abrigam uma grande variedade de microrganismos, algas e outras formas de vida cuja adaptação a ambientes extremos resultou na produção de substâncias com potenciais aplicações farmacêuticas, biomédicas e industriais.
Diversos capítulos reunidos em uma análise recente destacam diferentes caminhos pelos quais espécies marinhas estão sendo investigadas com vistas à sua funcionalização econômica e terapêutica. Um dos focos principais é o uso de tecnologias ômicas — como genômica, transcriptômica e metabolômica — na identificação e aproveitamento de compostos com propriedades como atividade antimicrobiana, antiviral, anticancerígena e anti-inflamatória.
Entre os organismos estudados, o microrganismo marinho Bacillus tem se mostrado promissor. Suas propriedades probióticas e de controle biológico vêm sendo aplicadas na aquicultura sustentável, promovendo a saúde dos peixes e reduzindo o uso de antibióticos. Além disso, esses Bacillus são fontes potenciais de enzimas, peptídeos bioativos e biossurfactantes com aplicações farmacêuticas e ambientais.
Outro destaque é a macroalga vermelha Kappaphycus alvarezii, amplamente cultivada como fonte de carragena — um polímero utilizado nas indústrias de alimentos, cosméticos e fármacos. A pesquisa avançou também no desenvolvimento de nanopartículas de prata a partir dessa alga, com potenciais aplicações em tratamentos contra inflamações, infecções, doenças cardiovasculares e câncer. Há ainda indicações do uso de suas biomoléculas como matéria-prima para bioplásticos e biocombustíveis.
Além disso, os estudos sobre a ulvana, um polissacarídeo sulfatado extraído de algas verdes do gênero Ulva, revelam uma opção viável para aplicações biomédicas. As propriedades anticoagulantes, antioxidantes e antitumorais da ulvana a colocam como candidata promissora no desenvolvimento de biopolímeros terapêuticos. Os pesquisadores destacam que o método de estabilização da biomassa algal tem impacto direto na extração eficiente da substância, demonstrando a importância do controle técnico nos processos produtivos.
Uma outra frente de destaque são os microrganismos marinhos, como bactérias e fungos, que possuem ampla diversidade taxonômica e química, o que lhes confere alto potencial na produção de novos compostos anticancerígenos. Os mecanismos de ação identificados incluem regulação de proteínas como p53 e p21, interferência na estrutura celular e bloqueio de fases necessárias para a multiplicação das células tumorais. O estudo sugere que essas moléculas podem ser utilizadas para tratamentos oncológicos mais eficazes e com menores efeitos colaterais que os atuais fármacos sintéticos.
Do ponto de vista da bioeconomia azul, os autores argumentam que a consolidação de soluções baseadas em organismos marinhos depende de investimento contínuo em pesquisa e da superação de desafios tecnológicos relacionados à extração, purificação e escalonamento dos compostos bioativos. Também enfatizam a necessidade de marcos regulatórios sólidos e práticas sustentáveis para garantir a preservação dos ecossistemas oceânicos frente à exploração desses recursos.
Em síntese, o conjunto de estudos reforça o papel estratégico da biotecnologia marinha no desenvolvimento de produtos terapêuticos e industriais a partir de fontes renováveis. O aproveitamento responsável da biodiversidade oceânica pode impulsionar soluções de alto valor agregado, desde que alinhado a princípios de sustentabilidade e inovação orientada por dados.
Fonte: Omics Translation Marine-Derived Pharmaceuticals for the Blue Bio-economy
