Uma nova parceria entre o Bezos Earth Fund e o The Earthshot Prize mira um gargalo recorrente no enfrentamento da crise climática: a distância entre boas ideias e capacidade de execução em escala. As duas organizações anunciaram um apoio financeiro de US$ 4,8 milhões para impulsionar 48 soluções nos próximos três anos, com o objetivo de tirar iniciativas promissoras do estágio de “pilotos” e aproximá-las de impacto sistêmico.
O desenho do acordo aproveita uma característica do próprio Earthshot: todos os anos, o prêmio seleciona 15 finalistas, mas recebe centenas de indicações globais que não chegam à fase final. A aliança desloca o foco para esse “estoque” de projetos já expostos a uma triagem internacional, abrindo uma via de financiamento para quem ficou fora da vitrine principal, mas demonstrou potencial técnico e operacional.
Na prática, o Bezos Earth Fund vai apoiar 16 organizações por ano, por três anos. Cada uma das primeiras selecionadas receberá US$ 100 mil para objetivos ligados à execução: expandir operações, fortalecer equipes, consolidar modelos de negócio e ampliar alcance. A lógica é acelerar o que já está em movimento, em vez de concentrar esforços apenas em novas apostas.
A primeira leva reúne um conjunto heterogêneo de frentes tecnológicas e territoriais. Estão na lista a Air Protein, que desenvolve proteínas a partir de dióxido de carbono; a Climatenza Solar, com soluções solares térmicas; o Instituto Floresta Viva, do Brasil, com atuação em restauração florestal; o Forum Konservasi Leuser, voltado à conservação de ecossistemas na Indonésia; e a Fundación Rewilding Argentina, com foco em reintrodução de espécies e recuperação de habitats.
O pacote inclui ainda a Hyperion Robotics, que trabalha com impressão 3D em concreto de baixo carbono; a InPlanet, com remoção de carbono via intemperismo acelerado de rochas; a Lasso, em captura e reciclagem de plásticos; a Mandai Nature, dedicada à conservação da biodiversidade; a Mati Carbon, voltada à remoção de carbono em solos agrícolas; e a UP Catalyst, que transforma carbono capturado em materiais avançados.
Também foram selecionadas iniciativas voltadas à natureza e à alimentação: MERMAID, para monitoramento de recifes de coral; a Asociación Conservacionista Misión Tiburón, na proteção de tubarões e ecossistemas marinhos; a Snowchange Cooperative, que integra conhecimento indígena à restauração ambiental; além da Simple Planet e da tHEMEat Company, associadas a proteínas alternativas. O conjunto explicita a aposta em rotas complementares para redução de emissões, restauração ecológica e reorganização de cadeias produtivas.
Ao justificar a iniciativa, a diretora de ciência, dados e mudança sistêmica do Bezos Earth Fund, Kelly Levin, afirmou que a inovação “está em toda parte”, mas muitas vezes permanece pequena quando o mundo precisa de escala. Pelo lado do Earthshot, o CEO Jason Knauf classificou as indicações anuais do prêmio como um pipeline global de soluções “investíveis” que beneficiam pessoas e planeta, e que, com a parceria, passam a ter apoio mesmo fora do circuito dos vencedores. O anúncio também reposiciona a filantropia climática como agente de estruturação: o Bezos Earth Fund foi criado com o compromisso de investir US$ 10 bilhões ao longo da década para enfrentar o clima e proteger a natureza, e agora usa a curadoria do Earthshot para reduzir barreiras de financiamento e conexão que travam a expansão de soluções já avaliadas.
