Japão articula capital, produção e pesquisa para encurtar a rota da biotecnologia ao mercado

O Japão está reorganizando sua política de biotecnologia em torno de um desafio recorrente: transformar pesquisa de alto nível em produtos clínicos e capacidade industrial. A estratégia combina recursos públicos, atração de capital de risco e expansão da manufatura regulada, com foco em reduzir a distância entre descobertas universitárias, desenvolvimento clínico e oferta de terapias em escala.

Um dos casos que sintetizam essa direção é o da Shinobi Therapeutics, empresa nipo-americana vinculada a pesquisas da Universidade de Kyoto e da Universidade da Califórnia em São Francisco. A companhia desenvolve células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas como iPS, projetadas para reduzir a rejeição imunológica. A proposta é que células transplantadas se tornem menos detectáveis pelo sistema imune, abrindo caminho para terapias celulares prontas para uso em oncologia e outras aplicações.

A empresa combina sua plataforma de células iPS com baixa resposta imune a uma tecnologia de expansão em massa para produzir células T voltadas ao combate de tumores. O modelo difere das terapias que coletam e modificam as próprias células de cada paciente, processo que pode demandar tempo e superar ¥30 milhões, cerca de US$ 450 mil, por tratamento. A alternativa alogênica buscada pela companhia pretende encurtar o intervalo entre diagnóstico e terapia e reduzir custos.

Desde 2022, a Shinobi conduz planejamento clínico no Japão e nos Estados Unidos, com bases de pesquisa e desenvolvimento em Kyoto, Shonan e South San Francisco. O arranjo reúne financiamento de fundos globais de capital de risco e apoio público japonês, ilustrando uma integração transfronteiriça que associa conhecimento acadêmico, investimento privado e preparação para produção em maior volume.

A base dessa política foi lançada em 2019, quando o Ministério da Economia, Comércio e Indústria estabeleceu sua estratégia nacional para 2030, amparada por aproximadamente ¥450 bilhões em investimento público concentrado. Em 2021, o Programa de Fortalecimento do Ecossistema de Empresas de Descoberta de Medicamentos passou a prever subsídios adicionais para startups que obtenham recursos de fundos de capital de risco certificados pelo governo, nacionais ou estrangeiros. O desenho procura compartilhar o risco das etapas iniciais e enfrentar o chamado “vale da morte”, no qual projetos promissores não chegam ao mercado.

A política também avança sobre a manufatura, um gargalo particularmente relevante para produtos de medicina regenerativa. No ano fiscal de 2024, o governo criou um programa de subsídios para organizações de desenvolvimento e fabricação por contrato, com ¥38,3 bilhões previstos em quatro anos. Entre os beneficiários está a PorMedTec, spinout da Universidade Meiji que atua com clonagem para produzir porcos doadores destinados ao xenotransplante, isto é, ao transplante de órgãos animais em humanos.

Em 2024, a PorMedTec clonou células de porcos geneticamente modificadas desenvolvidas pela empresa americana eGenesis e obteve a primeira reprodução, fora dos Estados Unidos, desse tipo avançado de porco doador com edição genética. A companhia pretende ampliar a produção anual para algumas centenas de animais, iniciar seu primeiro ensaio clínico de xenotransplante no Japão até o ano fiscal de 2027 e, no longo prazo, atender mercados asiáticos. Ao apoiar capital, cooperação entre indústria e universidades e infraestrutura produtiva, o Japão busca fazer da capacidade de entrega, e não apenas da descoberta científica, um componente central de sua competitividade no setor.

Fonte: Japan’s Bioeconomy Breakthrough: Turning World-Class Science into Global Business

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