Vida útil pesa mais que origem da fibra na circularidade têxtil

Um estudo aplicou, pela primeira vez, o indicador de Pressão sobre Recursos a fibras têxteis de base biológica e comparou algodão convencional, cânhamo e lã ao poliéster. A análise conecta características de circularidade do material aos limites ecológicos considerados no método e chega a um alerta relevante para decisões de engenharia, compras e políticas setoriais: a origem renovável de uma fibra, isoladamente, não determina seu desempenho circular.

O algodão convencional apresentou a maior pressão sobre recursos entre as quatro fibras examinadas e uma diferença estatisticamente significativa em relação ao poliéster. Já cânhamo, lã e poliéster não tiveram diferenças estatisticamente significativas no indicador, nem em seus valores iniciais nem em sua evolução ao longo do tempo. Os autores ressaltam que isso não os torna equivalentes ambientalmente; significa que, sob os dados, escopo e premissas usados, o indicador não permite estabelecer uma hierarquia clara entre esses três materiais.

O resultado do algodão é fortemente condicionado pelo consumo de materiais primários contabilizado no conjunto de dados. Para 1 kg de fibra, esse total foi de 12.588,24 kg, dos quais 12.540,79 kg correspondem à retirada de água de lagos e rios. No cânhamo, o consumo de materiais primários foi de 55,15 kg por kg de fibra, incluindo 44,35 kg de água. O algodão também registrou o menor orçamento ecológico de recursos entre as fibras avaliadas, enquanto o cânhamo apresentou a maior margem ecológica entre as opções de base biológica.

O trabalho avaliou 1 kg de fibra e combinou informações da fabricação com resultados de avaliação de ciclo de vida até o fim de vida. O cálculo incorpora massa do produto, perdas de manufatura, uso de matéria-prima virgem, reciclabilidade, aproveitamento em aplicações de menor exigência e vida útil. Para cada material, o método identifica a restrição ambiental mais próxima de ser atingida. Em algodão, cânhamo e poliéster, a restrição identificada foi a emissão fóssil de dióxido de carbono; para a lã, foram as emissões de substâncias que degradam a camada de ozônio. Por isso, o orçamento ecológico da lã não é diretamente comparável ao das demais fibras.

A durabilidade surgiu como a variável mais acionável no estudo. Como as fibras podem integrar produtos muito distintos, os pesquisadores calcularam os resultados para períodos de uso entre um e cem anos, sem fixar uma aplicação específica. A pressão sobre recursos caiu cerca de 80% entre o primeiro e o quinto ano de uso e 90% até o décimo ano. A redução é mais intensa nos primeiros anos, o que desloca a atenção de uma simples substituição de matéria-prima para estratégias que mantenham produtos em uso por mais tempo.

Para empresas, a leitura proposta é de que a escolha de fibras deve reunir, além desse indicador, desempenho técnico, custos de produção e aquisição, demanda, volatilidade de preços, resiliência da cadeia de suprimentos e infraestrutura de coleta e reciclagem. Quando materiais candidatos não se distinguem de forma consistente na pressão sobre recursos, investimentos em qualidade, reparabilidade, reuso, revenda e recondicionamento podem trazer ganhos circulares mais diretos. A pesquisa também aponta espaço para critérios de contratação pública e incentivos baseados em resultados demonstráveis de longevidade, reciclabilidade e redução de pressão sobre recursos, em vez de classificação baseada apenas na origem do material.

Há limites importantes. Os conjuntos de dados adotados assumem ausência de material reciclado e de material aproveitado em cascata, e não capturam a reciclagem interna de aparas na produção. A fase de uso, incluindo lavagem, secagem, manutenção, reparo e comportamento do consumidor, ficou fora da avaliação, pois o objeto analisado é a fibra intermediária, não o produto acabado. O indicador também cobre dez parâmetros ligados a seis limites ecológicos. Ainda assim, o estudo sustenta seu uso no ecodesign e na gestão de produtos, desde que análises futuras incorporem cenários realistas de uso, fim de vida e modelos como reparo, compartilhamento e produto como serviço.

Fonte: Measuring the circularity of bio-based textile fibers in light of planetary boundaries

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