Pesquisadores brasileiros desenvolveram um Índice de Saúde do Solo (ISS) para medir, em uma escala de 0 a 1, a condição funcional do solo em manguezais em diferentes estágios, de áreas preservadas a trechos degradados e em recuperação. Descrito em artigo na Scientific Reports, o indicador busca transformar processos físicos, químicos e biológicos complexos em uma métrica direta, com potencial para apoiar decisões de conservação e restauração e para organizar prioridades de gestão.
O ISS foi construído com um conjunto integrado de variáveis associadas a três eixos centrais do funcionamento do solo nesses ecossistemas: dinâmica do carbono (como textura do solo, teor de carbono orgânico e ferro pseudototal), imobilização de contaminantes (com ênfase em formas de minerais de ferro) e ciclagem de nutrientes (incluindo indicadores biológicos baseados em atividades enzimáticas de microrganismos do solo). Em conjunto, esses atributos permitem estimar o estado funcional do solo e sua capacidade de sustentar serviços ecossistêmicos.
A ferramenta foi aplicada no estuário do rio Cocó, no Ceará, e evidenciou contrastes claros entre áreas maduras, degradadas e restauradas. Os manguezais maduros apresentaram os maiores valores do índice (0,99 ± 0,03), enquanto os locais degradados ficaram no patamar mais baixo (0,25 ± 0,01). Já áreas replantadas há nove e 13 anos registraram valores intermediários (0,37 ± 0,01 e 0,52 ± 0,02), com desempenho superior nas áreas mais antigas, sugerindo uma recuperação gradual ao longo do tempo.
A pesquisa, segundo a gestora ambiental Laís Coutinho Zayas Jimenez, procurou quantificar dimensões diretamente relacionadas à provisão de serviços como sequestro de carbono, imobilização de contaminantes e ciclagem de nutrientes, permitindo acompanhar o restabelecimento ecossistêmico frente ao processo de recuperação. O trabalho é resultado de sua tese de doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), com orientação de Tiago Osório Ferreira e apoio da FAPESP.
O estudo também introduz uma cautela importante para políticas e projetos de restauração: a retomada de parte das funções pode ser rápida, mas isso não deve ser argumento para aceitar a degradação. Jimenez ressalta que alguns serviços podem retornar antes, como sequestro de carbono e ciclagem de nutrientes, enquanto outros, como a contenção de erosão costeira, tendem a demandar mais tempo. Atualmente, ela atua na Fundação Florestal, órgão ligado à Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo (Semil), responsável por Unidades de Conservação no Estado, das quais pelo menos 16 incluem áreas de manguezal.
Os autores situam o trabalho no contexto de crescente busca por soluções baseadas na natureza em resposta à crise climática, lembrando que manguezais são relevantes como sumidouros e estocadores de carbono, além de sustentarem a pesca e reduzirem a erosão costeira. O texto cita estimativas de perda global de 30% a 50% dos manguezais nos últimos 50 anos, com riscos associados a desmatamento, expansão urbana e efeitos das mudanças climáticas, como aumento do nível do mar e eventos extremos. No Brasil, o artigo destaca a presença de cerca de 1,4 milhão de hectares ao longo da costa, com um trecho contínuo entre Amapá e Maranhão e biodiversidade com mais de 770 espécies de fauna e flora.
Entre os diferenciais do ISS, os pesquisadores apontam o caráter aberto e mutável, com possibilidade de incorporar informações específicas do ecossistema e do contexto regional, incluindo dados de serviços ecossistêmicos e parâmetros geoquímicos, como fósforo, cujo significado pode variar conforme o ambiente, indo de benefício a risco de contaminação e eutrofização. O próximo passo, segundo o grupo, é entender qual tipo de carbono está retornando aos solos restaurados (mais ou menos estável) e ampliar a aplicação da metodologia: um novo projeto financiado pela FAPESP, “Desvendando a saúde do solo de manguezais brasileiros”, pretende combinar análises de solo, sensoriamento remoto e modelagem espacial para mapear a saúde desses solos e seu potencial de sequestro de carbono, com a ambição de produzir o primeiro mapa em larga escala do tema no país.
Fonte: Pesquisadores criam índice para avaliar saúde do solo em manguezais
