Pesquisadores brasileiros identificaram um repelente altamente eficaz contra o psilídeo-dos-citros (Diaphorina citri), inseto transmissor do greening, a mais devastadora doença que afeta os pomares de laranja no Brasil. A substância é o α-copaeno, presente em grandes quantidades no óleo de copaíba, e demonstrou ser cem vezes mais potente do que o β-cariofileno, composto anteriormente estudado para a mesma finalidade.
Segundo os autores da pesquisa, publicada na revista Scientific Reports, 44% das laranjeiras do estado de São Paulo já estão contaminadas pelo greening. Como não há tratamento eficaz para a doença, o único controle viável é a eliminação das plantas infectadas e o bloqueio da disseminação do inseto vetor. Neste contexto, o desenvolvimento de produtos baseados em compostos repelentes se apresenta como uma ferramenta promissora para o manejo integrado da praga.
Durante os experimentos, os cientistas testaram diferentes proporções de três compostos presentes no aroma natural da goiabeira: β-cariofileno, α-copaeno e α-humuleno. A planta havia sido observada como capaz de reduzir a incidência da doença em tangerinas, quando cultivada próxima a elas. Ao isolar os compostos, verificou-se que o α-humuleno é neutro quanto à atração ou repulsão do inseto, enquanto o α-copaeno mostrou efeito repelente em doses extremamente baixas.
Além das análises individuais, os pesquisadores também avaliaram a eficácia do óleo de copaíba diluído em hexano, confirmando seu efeito repelente. Para simular com precisão as condições naturais de emissão dos compostos, foi desenvolvido um difusor dinâmico que libera os cheiros em uma arena de comportamento onde os psilídeos eram monitorados. Esse aparato permitiu quantificar os compostos realmente voláteis e que atuam no comportamento dos insetos.
O químico Rodrigo Facchini Magnani, do Fundecitrus, explicou que a descoberta surgiu a partir de pesquisas em plantas geneticamente modificadas, nas quais o gene responsável pela produção de β-cariofileno foi introduzido em Arabidopsis thaliana. A modificação também elevou os níveis de α-copaeno e α-humuleno — o que motivou os experimentos com esses compostos em separado. O resultado foi a identificação do α-copaeno como o mais promissor para futura aplicação no campo.
A tecnologia se integra a uma estratégia mais abrangente conhecida como “repele-atrai-mata”. A proposta é repelir o inseto da laranjeira, atraí-lo para uma planta isca — como o curry, hospedeiro preferencial do psilídeo mas incapaz de transmitir a bactéria do greening — e, finalmente, eliminar o vetor no ponto de atração. Ainda há desafios, especialmente na modificação do curry para torná-lo letal ao inseto, segundo o entomologista Haroldo Xavier Linhares Volpe.
Além da aplicação prática, os dados obtidos abrem espaço para o desenvolvimento de novos bioinsumos no mercado de controle biológico de pragas, segmento em crescimento dentro da bioeconomia agrícola. A possibilidade de usar compostos naturais como o α-copaeno em formulações comerciais representa uma alternativa viável ao uso de inseticidas convencionais, contribuindo para a redução de impactos ambientais e contaminação dos pomares.
Os pesquisadores destacam que o interesse comercial nos compostos voláteis depende da sua real eficiência aérea — ou seja, do que de fato chega ao inseto no ambiente. A infraestrutura usada para quantificar essa emissão no ar, obtida com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), será essencial para próximos passos no escalonamento industrial de soluções baseadas nesses princípios ativos.
Com o greening já tendo dizimado pomares inteiros na Flórida (EUA), os resultados da equipe brasileira reforçam a urgência de estratégias sustentáveis para proteção da citricultura paulista, que lidera a produção mundial de laranjas. A adoção de repelentes naturais como o α-copaeno pode ser um passo importante para aumentar a resiliência dos pomares e reduzir a dependência de inseticidas químicos.
Fonte: α-Copaeno é um repelente potente do inseto transmissor do greening em citros
