A bioeconomia pode desempenhar um papel central na reindustrialização da Colômbia, desde que seja guiada por estratégias setoriais bem definidas e sustentáveis. É o que indica um estudo recente que analisou as relações econômicas entre setores produtivos colombianos a partir do modelo de insumo-produto. Os resultados revelam que uma expansão de 10% na demanda por produtos de base biológica elevaria o nível geral de produção econômica em 9,17%.
O impacto mais significativo se dá no setor industrial, que, nesse cenário, poderia registrar um crescimento de quase 49% no valor da produção. Interessantemente, esse avanço não está limitado aos subsetores já estabelecidos com uso de recursos biológicos. Indústrias com baixo uso atual, mas com potencial para substituição de insumos por biológicos, teriam crescimento ainda maior — até 58,5%.
Entre as atividades industriais com maior resposta está a indústria farmacêutica, com projeção de crescimento de 132,8%, seguida pela produção de substâncias químicas (97,9%) e pela fabricação de óleos vegetais e animais (65,2%). Esses segmentos já utilizam insumos biológicos em seus processos e têm infraestrutura consolidada, o que explica o forte efeito multiplicador de políticas de incentivo.
Por outro lado, setores como o de processamento de carnes, derivados de açúcar e café, apesar de apresentarem alto conteúdo biológico nos insumos, demonstraram crescimento limitado. Isso se deve à exportação de matérias-primas com baixo valor agregado, como café verde e carne in natura, o que reduz o potencial de valorização interna na cadeia industrial.
O estudo também indica que a promoção da bioeconomia pode mudar o perfil estrutural da indústria colombiana, redistribuindo de forma mais equilibrada a consumo intermediário entre setores. Essa reorganização pode fortalecer cadeias produtivas integradas e criar novos setores-chave. No cenário simulado, oito novas atividades passam a ser consideradas estratégicas, das quais seis pertencem ao setor industrial.
A análise das ligações produtivas destaca a relevância de setores com forte interdependência, tanto para frente (são fornecedores relevantes para outros setores) quanto para trás (dependem intensamente de insumos de outros setores). Indústrias como a de químicos, papel, plásticos e óleos vegetais mostram-se fundamentais nessa articulação econômica, com índices de ligação superiores à média da economia.
Por sua vez, atividades como café, carne ou açúcar refinado são classificadas como “independentes”, pois têm pouco efeito de encadeamento produtivo e concentram valor dentro de suas próprias cadeias. Já subsetores como têxteis, alimentício e equipamentos têm potencial para se tornarem vetores de integração caso passem a utilizar mais insumos de origem biológica.
Os autores ponderam, no entanto, que a abordagem ainda é altamente agregada e que os resultados macroeconômicos dependem da implementação coordenada de políticas públicas, especialmente em regiões com alta biodiversidade e vulnerabilidade social. O estudo reforça que a bioeconomia não é automaticamente sustentável e aponta a necessidade de estratégias que respeitem os territórios de comunidades indígenas e rurais, especialmente em contextos como a Amazônia e o Chocó.
Além da Colômbia, o estudo analisa paralelos com experiências brasileiras, indicando que a bioeconomia pode perder impacto se não houver fortalecimento institucional, inovação e integração com políticas industriais. A proposta é que a bioeconomia atue como vetor de mudança na estrutura produtiva, e não apenas como um nicho tecnológico ou ambiental.
Para os autores, o maior desafio não está apenas na substituição de insumos fósseis por bioinsumos, mas na criação de um ecossistema econômico sustentável, capaz de articular inovação, proteção ambiental e inclusão social. A expectativa é que o aprofundamento da análise em escala regional, a partir da base metodológica estabelecida, permita novos avanços na formulação de políticas de transição produtiva para a Colômbia.
