Andaluzia, no sul da Espanha, tem se destacado como um laboratório de políticas públicas para a aplicação da bioeconomia circular — modelo produtivo baseado no uso eficiente e sustentável de recursos biológicos. Desde 2018, a região conta com uma estratégia própria para este setor, que agora passa por uma atualização com horizonte até 2030.
Os resultados de um estudo conduzido no âmbito do projeto europeu ROBIN mostram que, embora o contexto institucional da bioeconomia circular em Andaluzia seja relativamente avançado, persistem lacunas significativas, sobretudo nos mecanismos de governança, financiamento e comunicação. A pesquisa identificou pontos fortes, fragilidades, oportunidades e ameaças com base em entrevistas, painéis e oficinas com atores envolvidos no setor, como gestores públicos, academia, empresas e a sociedade civil.
O estudo revela que a principal força da região é a capacidade organizacional. Andaluzia possui centros tecnológicos, universidades voltadas ao setor agroalimentar e instituições públicas com infraestrutura e conhecimento para impulsionar a bioeconomia circular. Além disso, a região se beneficia de abundante biomassa agrícola, especialmente de olivicultura, o que pode alimentar diversas cadeias produtivas sustentáveis.
Apesar disso, a integração entre empresas e o sistema de conhecimento é deficiente. Falta articulação entre as cadeias agroindustriais, financiamento adequado e estratégias de pesquisa em médio e longo prazo. A escassez de mecanismos que favoreçam a formação de alianças e o investimento privado em P&D compromete o avanço de projetos no território.
Outro desafio crítico identificado é a ausência de uma comunicação eficaz. Apesar do interesse crescente e da existência de casos bem-sucedidos, como o projeto OleoValoriza e o observatórioHORT OBSERV TIC, há um desconhecimento generalizado sobre o que é bioeconomia circular. A falta de clareza e de programas de capacitação e sensibilização limita a adesão da sociedade e de novos negócios ao modelo.
No aspecto financeiro, embora haja acesso a fundos europeus e nacionais, eles são insuficientes e dificultados por problemas de coordenação interinstitucional, regras incompatíveis entre diferentes fontes e instrumentos de crédito restritivos. O estudo destaca ainda a inadequação de instrumentos existentes em relação aos ciclos de vida dos projetos e a dificuldade em atrair e reter talentos no sistema de ciência e tecnologia regional.
O diagnóstico também aponta fragilidades no uso e valorização dos resíduos e subprodutos de origem biológica. Os atores mencionam barreiras logísticas, como a variação sazonal da biomassa, escassez de infraestrutura de armazenamento e custos de transporte elevados. Há carência de tecnologias adaptadas à diversidade de recursos biológicos disponíveis e de análises sobre mercados e aplicações potenciais desses recursos.
Apesar das dificuldades, a região já reúne condições institucionais e operacionais para alinhar esforços rumo a um modelo mais efetivo. A proposta em curso inclui a criação de clusters e redes de cooperação, revisão do arcabouço regulatório e foco no setor agroalimentar. A governança baseada no modelo de Nova Gestão Pública (NGP), com participação ativa de diferentes setores da sociedade, é vista como essencial para viabilizar a transição.
Além da Andaluzia, outras regiões espanholas como Catalunha e País Basco também desenvolvem estratégias com estruturas públicas-privadas. No entanto, o estudo defende que os modelos precisam ser adaptados ao contexto local e que resultados relevantes dependem da articulação entre atores, coordenação de políticas públicas e uso inteligente de recursos técnicos e financeiros.
Como desdobramento futuro, os autores recomendam validar o modelo em diferentes territórios e monitorar os impactos de longo prazo da abordagem colaborativa em termos de sustentabilidade. A pesquisa destaca a importância de integrar conhecimentos científicos e empíricos, além de reforçar campanhas de informação, capacitação e inclusão cidadão nos processos decisórios.
O caso andaluz revela que a sustentação da bioeconomia circular exige mais que boas ideias: requer estruturas de governança flexíveis, financiamento adequado, integração entre ciência e mercado, e ampla participação social. Apenas assim será possível transformar o potencial biológico do território em valor econômico sustentável.
Fonte: Driving Sustainability: Circular Bioeconomy and Governance in Andalusia (Southern Spain)
