Desigualdade na valoração socioambiental ameaça reservas extrativistas no Acre

Na Reserva Extrativista Chico Mendes, um projeto de pesquisa enfrentou a realidade desafiadora da valoração socioambiental, evidenciando a disparidade de remuneração entre dois produtos-chave da floresta amazônica: a borracha e a castanha-do-brasil.

Enquanto a borracha conseguiu alcançar uma remuneração sustentável, a cadeia produtiva da castanha ainda não oferece uma compensação econômica suficiente para a população extrativista local. O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), mostra que a borracha é vendida a quase oito vezes o preço de mercado graças a acordos vantajosos que incluem o pagamento por serviços socioambientais.

As atuais condições de mercado para a castanha-do-brasil são menos favoráveis, com preços de venda cerca de 2,8 vezes menores se comparados aos valores que promoveriam uma compensação justa baseada em critérios econômicos e socioambientais. Esta desigualdade contribui para práticas não sustentáveis, como a criação de gado, que oferece uma espécie de reserva de valor rápida para as famílias em situações de emergência financeira.

Os pesquisadores enfatizaram que o valor de mercado da castanha é inviável para permitir a reprodução social das populações locais, cuja manutenção digna na floresta está ameaçada. Como solução, uma política pública consistente de pagamento por serviços socioambientais semelhante à bem-sucedida experiência da borracha poderia induzir uma melhoria significativa no bem-estar econômico das comunidades e promover a conservação florestal.

O estudo também destaca a rentabilidade dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) em comparação com a criação de gado. Estes sistemas permitem uma produção diversificada enquanto conservam a floresta, mas carecem de avaliação contínua para garantir sua sustentabilidade como alternativa econômica viável.

A pesquisa faz parte da iniciativa Amazônia+10, apoiada pela FAPESP e outras instituições regionais, e segue métodos de Análise de Decisão Multicritério, que confirmaram a sustentabilidade da Reserva, com excepcionais melhorias nas dimensões econômica e social requeridas.

Este trabalho representa um passo importante na direção de mecanismos de valoração que integram perspectivas sociais e ecológicas para orientar comunidades rurais, gestores e a formulação de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento sustentável, garantindo valoração adequada dos produtos extrativistas e justiça socioambiental.

Fonte: A valoração e o pagamento por serviços socioambientais na Reserva Extrativista Chico Mendes

Compartilhar