Salvinia auriculata mostra potencial e limites para mitigar antibióticos no rio Piracicaba

Pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) identificaram resíduos de antibióticos no rio Piracicaba e avaliaram, de forma integrada, como essas substâncias se distribuem entre água, sedimento e peixes, além de testar a capacidade de uma planta aquática comum na região, a Salvinia auriculata, de reduzir parte dessa carga. O estudo, apoiado pela FAPESP e publicado na Environmental Sciences Europe, combinou monitoramento ambiental, testes de bioacumulação, análises de danos genéticos em organismos aquáticos e experimentos de fitorremediação para discutir riscos ecológicos e possíveis estratégias de enfrentamento.

As coletas ocorreram na região da barragem de Santa Maria da Serra, próxima ao reservatório de Barra Bonita, um ponto de acúmulo de cargas provenientes de toda a bacia. Segundo o trabalho, o local recebe contribuições de esgoto urbano tratado, efluentes domésticos, aquicultura, criação de suínos e escoamento difuso associado à agricultura. Foram analisadas amostras em dois períodos, chuvoso e estiagem, contemplando 12 antibióticos de classes amplamente usadas, como tetraciclinas, fluoroquinolonas, sulfonamidas e fenóis.

Os dados apontaram sazonalidade clara: no período chuvoso, a maioria dos compostos ficou abaixo do limite de detecção; na estiagem, com menor volume de água e maior concentração de contaminantes, diferentes antibióticos foram detectados. As concentrações variaram de nanogramas por litro na água a microgramas por quilo no sedimento. No sedimento, foram observadas fluoroquinolonas (como a enrofloxacina) e sulfonamidas em níveis superiores aos relatados em estudos internacionais comparáveis, reforçando o papel do sedimento, rico em matéria orgânica e nutrientes como fósforo, cálcio e magnésio, como reservatório e possível fonte de remobilização ao longo do tempo.

Um dos achados mais sensíveis foi a detecção de cloranfenicol em lambaris (Astyanax sp.) coletados com pescadores ribeirinhos na região de Barra Bonita. O cloranfenicol teve uso em animais de produção proibido no Brasil por riscos associados à toxicidade; no estudo, apareceu apenas na estiagem, com concentrações na ordem de dezenas de microgramas por quilo. O resultado chama atenção por envolver uma espécie amplamente comercializada e consumida localmente, sugerindo uma possível via indireta de exposição humana por meio da alimentação.

Nos experimentos de laboratório, os pesquisadores escolheram enrofloxacina e cloranfenicol como foco e testaram a capacidade de Salvinia auriculata de retirar essas moléculas da água. A planta foi exposta a concentrações ambientais e a níveis cem vezes maiores, usando compostos radiomarcados com carbono-14, o que permitiu rastrear o destino dos antibióticos na água, na planta e nos peixes. Com maior biomassa vegetal, a Salvinia removeu mais de 95% da enrofloxacina em poucos dias, reduzindo a meia-vida do composto para cerca de dois a três dias. Para o cloranfenicol, a remoção foi parcial (entre 30% e 45%) e mais lenta, com meias-vidas de 16 a 20 dias.

As imagens de autorradiografia indicaram concentração dos antibióticos principalmente nas raízes da planta, sugerindo papel central da rizofiltração e da absorção radicular. Já a etapa de bioacumulação trouxe um alerta importante para o desenho de soluções: reduzir a concentração do antibiótico na água não significa, automaticamente, menor absorção pelos peixes. A enrofloxacina permaneceu majoritariamente dissolvida e foi eliminada relativamente rápido pelo lambari, com meia-vida de cerca de 21 dias e baixo fator de bioconcentração. O cloranfenicol, por outro lado, apresentou meia-vida superior a 90 dias e fator de bioconcentração elevado. A presença da Salvinia alterou a dinâmica: apesar de reduzir a quantidade na água, em alguns cenários houve aumento da velocidade de absorção pelo peixe, hipótese associada a possíveis transformações do composto ou mudanças na sua forma química, aumentando a biodisponibilidade.

Mesmo com essa complexidade, um resultado relevante apareceu nas análises genotóxicas: o cloranfenicol elevou danos ao DNA dos peixes, medidos por micronúcleos e anomalias nucleares em células sanguíneas, e a presença da Salvinia reduziu esses danos, aproximando-os dos grupos-controle. Para a enrofloxacina, a planta não atenuou de forma significativa os efeitos genotóxicos. O estudo conclui que a Salvinia auriculata não é solução simples: persistem incertezas sobre subprodutos e sobre o manejo da biomassa contaminada, que pode virar fonte secundária de poluição se não for removida e tratada. Ainda assim, os autores indicam que macrófitas aquáticas podem integrar estratégias de mitigação de baixo custo e baseadas na natureza onde tecnologias avançadas de tratamento não são viáveis economicamente. As moléculas radiomarcadas foram concedidas pela International Atomic Energy Agency (IAEA). O artigo está disponível em https://link.springer.com/article/10.1186/s12302-025-01275-7.

Fonte: Planta aquática reduz antibióticos na água e danos genéticos em peixes

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