Um artigo de revisão publicado em julho de 2025 reuniu evidências e tendências sobre como o Chile pode avançar na valorização de biomassa florestal a partir de seus principais ativos industriais: plantações de Pinus radiata e Eucalyptus. O trabalho organiza o que já está estabelecido na indústria e o que ainda depende de pesquisa aplicada para transformar subprodutos em materiais, insumos e energia, conectando a discussão a instrumentos nacionais como a Roteiro de Economia Circular 2040 e a Lei de Responsabilidade Estendida do Produtor (Lei REP).
O panorama produtivo descrito é robusto e concentrado em commodities. Em 2022, as plantações florestais comerciais somavam cerca de 2,28 milhões de hectares, com predominância de P. radiata (54,6%) e E. globulus/E. nitens (39,5%). Em 2023, o consumo industrial de madeira em tora alcançou aproximadamente 39,95 milhões de m³ (base madeira sólida, sem casca), e serrados e celulose responderam por mais de 78% do uso. O texto também registra a capacidade instalada de produção de celulose química (processo Kraft) em 7,13 milhões de toneladas (2023), ao mesmo tempo em que aponta críticas ao excesso de produtos de baixo valor agregado, como a celulose “in natura”.
No eixo de biomateriais, a revisão destaca o gargalo histórico da lignina: embora seja gerada em grande volume nas fábricas de celulose, seu uso segue majoritariamente como combustível interno para eletricidade e calor, por barreiras de infraestrutura e custo de extração e purificação, além de desafios intrínsecos como heterogeneidade química e baixa solubilidade. Ainda assim, o artigo descreve rotas de aplicação discutidas na literatura, de resinas adesivas a espumas, hidrogéis e compósitos, como caminhos para substituir polímeros de origem fóssil, caso sejam superados os entraves de processamento e escala.
Outro vetor com base industrial mais próxima é a nanocelulose, com foco em celulose nanofibrilada (CNF) obtida de polpas Kraft de E. globulus, E. nitens e P. radiata. O artigo sintetiza resultados que mostram como diferenças na composição (teor de hemicelulose e lignina residual) e na morfologia das fibras influenciam a eficiência de fibrilação e as propriedades das nanofibras. Em estudos citados, CNFs de eucalipto alcançaram diâmetros médios de 20 a 50 nm e alta estabilidade coloidal; já a fibra de pinus, com maior lignina residual e paredes celulares mais espessas, tende a gerar nanofibras com maior diâmetro (até 100 nm) e menor razão comprimento/diâmetro, embora tratamentos oxidativos tenham melhorado dispersão e reduzido aglomeração.
Em termos de aplicação, a revisão aponta que rejeitos do processo Kraft, tradicionalmente tratados como resíduo, podem ser insumo para nanocristais de celulose com dimensões médias de 5–10 nm de diâmetro e 100–200 nm de comprimento. Também são descritos desenvolvimentos em filmes bioativos para embalagem de alimentos (incluindo compósitos com zeólita trocada com cobre e efeito antimicrobiano) e em filmes para liberação controlada de antibiótico. O texto registra ainda um processo semindustrial de CNF criado na Unidad de Desarrollo Tecnológico (UDT) da Universidad de Concepción, que deu origem a produtos já comercializados no país, usados como reforço de bioplásticos, espessante em tintas e substituto parcial de adesivo em painéis de partículas para reduzir emissões de formaldeído.
Na frente de extratos de casca, os taninos aparecem como subproduto com alto potencial industrial, especialmente em adesivos para painéis de madeira. A revisão relembra que o Chile testou, entre 1993 e 2002, a adoção industrial de adesivos com extrato de casca na fábrica de painéis de partículas da Masisa em Chiguayante e relata ensaios posteriores (2012) em MDF em Coronel, com extratos e endurecedores específicos. O trabalho também descreve avanços em formulações com menor toxicidade, como substituição de paraformaldeído por glioxal, resultando em painéis com emissões de formaldeído comparáveis à madeira natural, e aponta limitações práticas para uma substituição total de resinas sintéticas: variabilidade química dos extratos, disponibilidade em escala e tempos de prensagem mais longos.
Para energia e bioprodutos, a revisão compila o estágio chileno de tecnologias de torrefação, pirólise e gaseificação, ainda concentrado em pesquisa e plantas-piloto. O texto estima a geração anual de cerca de 4,3 milhões de m³ de subprodutos florestais e descreve, por exemplo, uma planta-piloto de torrefação e peletização (70 kg/h e 300 kg/h) operada em parceria com a UDT, além de unidades de pirólise (25 kg/h para pirólise rápida e 12 kg/h para pirólise intermediária). Em paralelo, o artigo destaca barreiras não técnicas: ausência de marcos regulatórios para uso de bio-óleo como combustível e falta de padrões nacionais de certificação para biochar, o que reduz previsibilidade para investimento e escala.
Ao conectar essas rotas tecnológicas a políticas públicas, o artigo situa a transição dentro de compromissos assumidos pelo Chile, incluindo a incorporação da economia circular na atualização de 2020 das Contribuições Nacionalmente Determinadas e a implementação da Lei REP, com foco em redução de resíduos e estímulo à reutilização. A revisão também reforça a necessidade de Avaliação do Ciclo de Vida para evitar que a dependência de recursos renováveis seja tratada, por si só, como sinônimo de sustentabilidade, e aponta que lacunas de transferência tecnológica e de instrumentos regulatórios seguem determinando o ritmo com que subprodutos de madeira deixam de ser combustível de baixo valor para se tornar base de materiais e cadeias mais sofisticadas.
Fonte: Actualized Scope of Forestry Biomass Valorization in Chile: Fostering the Bioeconomy
