Uma revisão científica conduzida na Universidade Federal do Amazonas aponta que resíduos da castanha-do-Brasil podem deixar de ser um passivo pouco aproveitado para se tornar matéria-prima de bioadsorventes voltados ao tratamento de efluentes. O estudo analisou publicações experimentais de 2018 a 2025 sobre a conversão termoquímica de três frações, casca, ouriço e película, em biochar e carvão ativado, com foco na remoção de corantes orgânicos, fármacos e pesticidas em sistemas aquosos.
O tema ganha relevância pelo volume de biomassa residual gerado na cadeia. Entre 2021 e 2024, o Amazonas manteve-se como principal produtor de castanha-do-Brasil, com produção variando de 11,291 a 14,303 mil toneladas. Segundo o levantamento, cerca de 90% desse volume corresponde a resíduos, enquanto apenas 10% se refere à fração comercializada. O ouriço costuma permanecer em áreas de coleta ou ser queimado para liberar espaço; a casca se acumula em unidades de beneficiamento; e a película, removida em etapas como torrefação ou despeliculamento, é tratada como pó ou sobra de limpeza.
A revisão selecionou 17 artigos experimentais em português, espanhol e inglês, após excluir 65 trabalhos fora do escopo, revisões, teses, dissertações e publicações sem dados experimentais de adsorção. A busca foi feita nas bases Scopus, Web of Science, Google Scholar e PubMed, com descritores relacionados a resíduos de castanha-do-Brasil, adsorção, carvão ativado, biochar, bioadsorvente e corantes. A análise comparou frações utilizadas, rotas de processamento, contaminantes-alvo, eficiências de remoção e mecanismos de retenção.
A casca da castanha-do-Brasil aparece como a fração mais estudada e com resultados consistentes. Carvões ativados obtidos dessa biomassa alcançaram remoção de 92,51% do herbicida 2,4-D, 98,6% de amoxicilina e 98,83% de paracetamol em efluentes simulados. Também foram relatadas remoções de 83% a 99% para fenol. Nos corantes, a casca apresentou desempenho elevado contra azul de metileno, violeta cristal, azul básico 26 e laranja reativo 16, incluindo eficiências de 99% e 99,51% em diferentes rotas de carbonização e ativação.
O ouriço da castanha-do-Brasil, embora menos explorado, surge como uma frente técnica relevante. Um dos estudos revisados registrou remoção de até 99% de azul de metileno com carvão ativado produzido a partir dessa fração, desempenho descrito como comparável ao de adsorventes comerciais. A revisão também destaca avaliações de viabilidade para uso do ouriço e da casca como precursores de carvão ativado, com possibilidade de abrir novas oportunidades produtivas para agricultores e trabalhadores ligados à cadeia na Amazônia.
A película é o ponto cego do campo. Apesar de ser gerada continuamente durante o processamento e compartilhar a base lignocelulósica das demais frações, ainda não há investigação sistemática sobre seu uso como material adsorvente. Para os pesquisadores, essa lacuna é relevante porque a composição dos resíduos, rica em celulose, hemicelulose e lignina, favorece processos como pirólise, ativação térmica e ativação química, capazes de formar estruturas porosas e grupos funcionais associados à retenção de contaminantes.
Os resultados indicam um campo promissor, mas ainda dependente de avanço metodológico. A diversidade de rotas empregadas, carbonização simples, ativação por vapor d’água, dióxido de carbono e agentes químicos como KOH, NaOH e H₃PO₄, dificulta comparações diretas entre estudos. A revisão aponta como prioridades a padronização das metodologias, testes em efluentes reais, avaliação de regeneração e reúso dos materiais e análise de ciclo de vida. Esses passos serão decisivos para transformar desempenho de laboratório em solução aplicada ao saneamento e à gestão de resíduos na Amazônia.
