Pesquisa na Polônia aponta polarização sobre produtos bio-baseados e pressiona legisladores por regras e promoção

Um estudo com 500 adultos na Polônia, realizado em 2024/2025 por entrevistas telefônicas assistidas por computador, mapeou como consumidores percebem a bioeconomia e seus produtos. O trabalho identificou um cenário de alta familiaridade declarada com o termo, mas com compreensão concentrada em associações tradicionais, além de uma polarização do público entre entusiastas e céticos, divisão que, segundo a análise, reflete o ambiente mais amplo de fragmentação social e política.

Quase metade dos respondentes afirmou conhecer o termo, enquanto a maioria foi capaz de relacioná-lo a itens como biomassa (59%), biocombustíveis (47%), agricultura orgânica (42%) e biotecnologia (41%). A leitura dominante é funcional: a bioeconomia aparece como um sistema de matérias-primas e energia, com baixa presença de associações ligadas a economia circular e inovação, sugerindo que o conceito ainda não está consolidado como ideia de transformação sistêmica no imaginário do consumidor.

Uma análise de regras de associação indicou que certos termos são escolhidos em conjunto com frequência. Entre os padrões mais recorrentes, destacam-se combinações como biomassa → biocombustíveis e vínculos entre biotecnologia, bioplásticos e biocombustíveis, sinalizando que os entrevistados percebem esses elementos como parte de um mesmo “pacote” semântico. Ao mesmo tempo, o estudo registra uma lacuna: mesmo com a centralidade dos biocombustíveis nas associações, há resistência específica quando o tema é infraestrutura de biogás no território.

Na avaliação de alimentos orgânicos, 48% relataram atitude positiva, e a dimensão regulatória aparece com força: quase 70% esperam que o governo promova práticas agrícolas mais favoráveis ao ambiente, e perto de 50% defendem que o poder público imponha padrões de produção por meio de normas. Já para produtos industriais bio-baseados, a abertura é descrita como majoritária, inclusive com disposição para usar plásticos e materiais bio-baseados mesmo com preço ligeiramente maior.

O ponto de maior atrito é o biogás. Apenas cerca de 28% disseram não ter objeções à construção de uma planta de biogás perto do local de residência, indicando um descompasso entre aceitação de produtos e aceitação de infraestrutura. O estudo também mostra que a avaliação de qualidade desses materiais é majoritariamente positiva ou neutra, mas há uma parcela que os considera piores (cerca de 15%) e um contingente relevante sem opinião (pouco acima de 16%).

Ao cruzar respostas com características do público, os resultados apontam que renda e familiaridade com o termo foram os fatores mais associados a maior abertura e maior exigência de atuação estatal. A renda per capita mais alta se relacionou a expectativas mais fortes de que o governo incentive e também regule a transição em alimentos e bens industriais, além de maior prontidão para consumir materiais bio-baseados. A familiaridade declarada com “bioeconomia” seguiu o mesmo padrão: quem afirma conhecer o conceito tende a apoiar mais tanto a promoção quanto medidas coercitivas na forma de obrigações legais.

A segmentação por clusters reforçou a leitura de polarização: os céticos (228 pessoas) são, em média, mais jovens e de menor renda, demonstram menor interesse por orgânicos, duvidam mais da qualidade de materiais bio-baseados e rejeitam mais a ideia de impor métodos de produção; já os entusiastas (272 pessoas) apresentam idade e renda um pouco maiores, consomem orgânicos, apoiam promoção e normas para produção e se mostram mais abertos a bens industriais bio-baseados, ainda que também apareçam indecisos sobre biogás. Para os autores, os resultados sugerem que a implementação depende de comunicação, padrões claros e atenção ao risco de politização do tema.

Fonte: Perceiving the bioeconomy: Polarized consumer attitudes in Poland (Scientific Papers of Silesian University of Technology, 2025, No. 232)

Compartilhar