Enquanto políticas públicas reiteram a importância da bioeconomia como parte central da transição energética e proteção ambiental, a adoção de biorrefinarias por agricultores segue sendo baixa. Um estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Produção Industrial do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT) cria um modelo computacional para entender o porquê. A pesquisa, apoiada em dados geográficos e socioeconômicos, simula as decisões individuais de agricultores alemães sobre participar ou não desses sistemas produtivos baseados em biomassa.
O modelo desenvolvido insere agricultores como agentes autônomos em um ambiente dinâmico, tomando decisões com base em critérios como volume local de biomassa, infraestrutura pré-existente (como usinas de biogás) e atitudes pessoais sobre o uso da biomassa. A simulação também considera a interação social entre os agentes, permitindo visualizar como se formariam redes de colaboração em torno de biorrefinarias integradas descentralizadas.
Os resultados indicam que a cooperação é quase sempre uma condição necessária para viabilizar biorrefinarias. Apenas 1% das instalações simuladas foram implementadas de forma individual. O padrão mais comum é o de um agricultor que lidera a operação e depende de entre cinco e dezessete outros produtores para fornecer insumos. Em menor escala (35-50%), surgem cenários com co-propriedade, nos quais o risco e o custo de investimento são compartilhados.
Um dos achados centrais do modelo é a vantagem do “primeiro a agir”. Agricultores com maior conhecimento prévio sobre a tecnologia adotam mais rapidamente a inovação e têm acesso preferencial a insumos e parceiros. A simulação mostra que, com o tempo, se esgotam os recursos disponíveis (biomassa e cooperadores), criando barreiras substanciais para os que entram depois.
As principais razões para a não adoção pelas simulações foram: a recusa em usar biomassa para fins industriais (45-50% dos casos de rejeição), a relutância em investir com parceiros (quase 40%) e a simples insuficiência de biomassa local, mesmo quando havia disposição à cooperação.
Os autores sugerem que os obstáculos vão além da viabilidade técnico-econômica. Fatores sociais, como desconfiança na cooperação e desconhecimento sobre os benefícios da biorrefinaria, desempenham papel relevante. Portanto, políticas focadas apenas em subsídios ou incentivos financeiros são insuficientes.
Como desdobramento, os pesquisadores apontam a necessidade de políticas públicas voltadas à melhoria do fluxo de informação entre agricultores e à criação de espaços coordenados para estimular a cooperação regional. Plataformas de matchmaking, bancos de dados compartilhados e campanhas de informação podem ser eficazes para aceleração do processo de adoção.
O estudo reconhece limitações. Por exemplo, apenas agricultores ligados a usinas de biogás foram representados, excluindo mais de 240 mil produtores agrícolas do modelo. E a tecnologia considerada — biorrefinarias lignocelulósicas integradas — representa apenas uma entre diversas opções possíveis. Ainda assim, o modelo oferece uma base robusta para futuras análises que combinem dados espaciais e comportamentais visando orientar políticas públicas e decisões de investimento no setor.
Para que biorrefinarias avancem como eixo estratégico da bioeconomia alemã, será necessário mais do que financiamento. Será preciso resolver o problema de coordenação entre muitos agentes, com recursos limitados e interesses diversos. O modelo mostra que esse desafio é superável — mas depende de ação coordenada e informação bem direcionada.
Fonte: A georeferenced agent-based model for farmer’s decision-making to adopt biorefineries
