Um estudo em acesso aberto propõe um novo modelo de análise e governança ambiental para orientar a expansão da aquicultura de algas de forma sustentável, conectando política pública, instrumentos regulatórios e impactos ecológicos ao longo de toda a cadeia, do cultivo aos produtos finais. A pesquisa parte do diagnóstico de que o setor cresce rapidamente na Europa e nas Américas, mas avança em um cenário institucional ainda fragmentado, no qual muitos países não têm enquadramentos específicos para algas e adaptam regras criadas para outras modalidades de aquicultura.
O ponto central é a integração entre serviços ecossistêmicos “engenheirados” e desserviços, isto é, efeitos positivos e negativos gerados por sistemas de cultivo. Entre os resultados positivos associados ao cultivo, o artigo destaca remoção de nutrientes, tamponamento de pH e captura de carbono, que podem contribuir para enfrentar eutrofização e acidificação oceânica. Ao mesmo tempo, os autores chamam atenção para riscos ligados ao mau desenho e à má gestão, com possibilidade de efeitos indesejados como sombreamento do bentos, alteração de comunidades locais, facilitação de espécies invasoras, transmissão de doenças e mortalidade de megafauna por emalhe em linhas de cultivo.
Para lidar com esse balanço entre ganhos e riscos, o estudo adapta o tradicional modelo DPSIR (Drivers–Pressures–State–Impact–Response), redefinindo “Pressure” como Progress para reconhecer que determinadas intervenções podem produzir resultados restaurativos, e não apenas danos a serem mitigados. A proposta também diferencia respostas voltadas a reduzir impactos daquelas orientadas a restaurar serviços de regulação e manutenção, como qualidade da água e biodiversidade. Na prática, o modelo busca tornar visível, de forma comparável, quando a aquicultura opera como tecnologia baseada na natureza com efeitos líquidos positivos, e quando passa a gerar custos ambientais e sociais.
Como método, os autores fazem uma síntese qualitativa de literatura científica e documentos de política e regulação, classificando os efeitos do cultivo segundo a Common International Classification of Ecosystem Services (CICES v5.1) e mapeando instrumentos e instituições por uma abordagem “snowball”. O trabalho identifica, por exemplo, serviços de provisão ligados à biomassa para alimentação, energia e materiais, mas também limitações relevantes para a cadeia, como o risco de metais pesados e altos teores de iodo afetarem o uso alimentício, exigindo conformidade com regras de segurança e qualidade.
O estudo usa a Dinamarca como caso para conectar instrumentos e responsabilidades em diferentes níveis, do internacional ao local. O país aparece como um laboratório institucional por combinar licenciamento, exigências de avaliação de impacto ambiental conforme o caso e atenção a áreas protegidas, como Natura 2000, além de já contar com um conjunto de sítios de pesquisa, produtores comerciais e dezenas de pequenas “marine gardens” licenciadas. A análise ressalta que o desenho regulatório varia fortemente: alguns sistemas impõem custos e prazos elevados para licenças e estudos ambientais; outros adotam mecanismos de garantia financeira prévia, como depósitos para custear limpeza em caso de abandono de área, para reduzir risco ambiental sem depender apenas de penalidades posteriores.
Na dimensão de uso do espaço marinho, o artigo chama atenção para conflitos potenciais com navegação, mergulho e percepção da paisagem, enquadrando esses efeitos como desserviços culturais associados à ocupação do mar por estruturas de cultivo. Para mitigar tensões, discute-se a importância de planejamento espacial marinho e a possibilidade de integração com outros usos, como combinações com diferentes espécies em sistemas multitróficos e sinergias com estruturas offshore, sempre condicionadas a monitoramento e regras claras para evitar que ganhos locais gerem perdas para outros atores costeiros.
Ao final, a contribuição do estudo está menos em “prometer” benefícios automáticos e mais em oferecer um arcabouço que permita aos formuladores de política e ao setor produtivo operar com critérios: mapear efeitos, identificar quem assume custos e quem captura benefícios, e escolher instrumentos capazes de incentivar resultados restaurativos enquanto evitam externalidades. Para uma indústria que busca escala, o recado técnico é direto: sem uma governança adaptativa, transversal e baseada em evidências, a expansão do cultivo corre o risco de reproduzir lacunas regulatórias já conhecidas em outras cadeias de produção marinha.
