Dados de satélite analisados em um estudo publicado na revista Communications Earth & Environment indicam que o desmatamento na Amazônia está mudando de forma consistente o clima regional quando comparado a áreas com cobertura florestal acima de 80%. Onde a vegetação foi mais removida, os pesquisadores observaram aumento da temperatura da superfície, queda da evapotranspiração e redução das chuvas, principalmente na estação seca, combinação que pode reforçar um ciclo de secura e aquecimento.
Ao comparar regiões altamente desmatadas, com cobertura florestal inferior a 60%, com áreas vizinhas mais preservadas, o trabalho encontrou um padrão que lembra o clima de zonas de transição entre floresta úmida e savana. Em média, essas áreas mais desmatadas registraram temperatura de superfície 3 °C maior na estação seca, além de evapotranspiração 12% menor e chuvas 25% menores do que as regiões de referência com alta cobertura florestal.
O estudo também identificou mudança na distribuição da precipitação: nas áreas com menos de 60% de floresta remanescente, houve 11 dias a menos de chuva, em média. Para os autores, esse dado reforça que a perda de vegetação não afeta apenas o total precipitado, mas também o ritmo de ocorrência das chuvas ao longo do período seco, ampliando o estresse hídrico local.
Os pesquisadores alertam que a combinação de clima mais quente e mais seco pode acelerar a degradação florestal, com efeitos como aumento da mortalidade de árvores e maior suscetibilidade a incêndios florestais. Esse ambiente tende a pressionar espécies mais sensíveis da floresta úmida e, ao mesmo tempo, abrir espaço para a dominância de nativas oportunistas e gramíneas exóticas, com impactos diretos sobre a biodiversidade.
No debate regulatório, o estudo é apresentado como evidência científica a favor de manter, em propriedades rurais da Amazônia, a cobertura florestal mínima prevista no Código Florestal. Segundo os autores, a manutenção de pelo menos 80% de vegetação nativa em imóveis situados na floresta, exigência nas áreas da Amazônia Legal classificadas como floresta, ajuda a sustentar condições climáticas menos adversas, com reflexos também sobre a produção agrícola que depende do regime de chuvas.
O trabalho também contextualiza o avanço do uso da terra com dados do MapBiomas: entre 1985 e 2024, a Amazônia brasileira perdeu 13% de vegetação nativa, cerca de 520 mil km². No mesmo período, as pastagens cresceram de 123 mil km² para 561 mil km² e a área de agricultura de 1,8 mil km² para 79 mil km²; a mineração, por sua vez, atingiu 4.440 km² em 2024. Mesmo com a desaceleração recente, o estudo lembra que, só em 2024, houve remoção de mais de 6,3 mil km² de vegetação nativa na Amazônia Legal, segundo o Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Metodologicamente, os cientistas dividiram a Amazônia em uma grade de amostras de cerca de 55 km x 55 km, agrupando-as por níveis de desmatamento acumulado (remanescente de até 40%, de 40% a 60% e de 60% a 80%) e comparando com células vizinhas acima de 80% de cobertura. Foram avaliadas 11 variáveis climáticas, incluindo temperatura de superfície, evapotranspiração, chuva anual e por estação e número de dias chuvosos. Nas situações mais extremas, em áreas com até 40% de floresta remanescente, a temperatura na estação seca chegou a ser até 4 °C maior do que nas referências, enquanto a evapotranspiração no período seco foi, em média, 45 milímetros menor. Para os autores, os resultados reforçam a urgência de controlar o desmatamento e restaurar áreas degradadas para recompor serviços ecossistêmicos associados à água, temperatura e carbono.
Fonte: Desmatamento na Amazônia eleva em 3 °C a temperatura da superfície durante a estação seca
