Estudo identifica 110 biorrefinarias no Brasil e aponta desafios para consolidar modelo de economia circular

Um mapeamento inédito de biorrefinarias no Brasil, realizado em uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, evidencia a diversidade operacional e tecnológica das plantas que integram a produção de biocombustíveis e outros produtos a partir de biomassa. O estudo identificou 429 plantas industriais em funcionamento dedicadas aos biocombustíveis, das quais 110 foram classificadas como biorrefinarias por atenderem a critérios de integração de processos, aproveitamento de múltiplas matérias-primas e produção de subprodutos com valor agregado.

Entre os setores analisados, destaca-se o etanol, com 359 unidades produtivas, predominantemente movidas à cana-de-açúcar. No entanto, apenas uma parte opera vias que podem ser consideradas biorrefinarias, aproveitando, por exemplo, resíduos como vinhaça, bagaço e leveduras para a geração de energia ou biofertilizantes. O número de usinas que avançam na direção da circularidade plena ainda é pequeno, com apenas 5 unidades dedicadas à produção de etanol de segunda geração, majoritariamente no estado de São Paulo, utilizando biomassa lignocelulósica como matéria-prima.

No mercado de biodiesel, das 58 plantas identificadas, 35 apresentaram características classificáveis como biorrefinarias. Destacam-se as usinas integradas à cadeias agrícolas ou agroindustriais, como esmagadoras de soja e frigoríficos. Algumas plantas operam tecnologias de esterificação de óleos residuais e produção de derivados como a glicerina bidestilada, o que amplia o leque de aplicações e valor comercial.

Outro exemplo relevante são as biorrefinarias voltadas para a produção de biogás, com 12 unidades mapeadas, das quais seis utilizaram resíduos agroindustriais, especialmente do setor sucroenergético. Dessas, apenas duas integram as cadeias de etanol e açúcar de forma sistêmica, operando configuradas como plataformas tecnológicas interconectadas.

O estudo organizou as biorrefinarias de acordo com a tipologia produtiva e a origem das matérias-primas. No caso do etanol, além da predominância da cana-de-açúcar, foram identificadas 7 plantas que processam exclusivamente milho, outras 10 com operação flexível entre cana e milho, e somente uma usando soja como insumo – um indicativo ainda tímido frente ao papel do Brasil como um dos principais produtores globais da oleaginosa.

A análise detalhada também identifica avanços na certificação dos biocombustíveis. Seis unidades possuem a certificação internacional ISCC CORSIA Plus, garantindo sua aptidão como matéria-prima para o combustível sustentável de aviação (SAF). A multinacional Raízen lidera esse movimento com unidades que combinam etanol de primeira e segunda geração, biometano e energia elétrica, assumindo posição estratégica no mercado nacional de bioenergia.

Embora os dados revelem progressos importantes em direção à integração produtiva e à circulação de recursos em cadeias bioeconômicas, o estudo chama a atenção para desafios de escalabilidade das tecnologias de segunda geração e para a tímida adesão, ainda, de grandes grupos ao aproveitamento de resíduos como plataforma de negócios. A predominância de modelos produtivos baseados apenas em extração primária ainda é ampla no setor de etanol e biogás.

Por fim, o trabalho recomenda ações para fortalecer esse cenário: estímulo à pesquisa em rotas tecnológicas avançadas, arcabouço regulatório que valorize a integração de processos e mecanismos financeiros que garantam atratividade a projetos de inovação industrial. A partir dessa estratégia, conclui-se que o Brasil reúne condições técnicas e operacionais para liderar a transição energética global via bioeconomia, desde que se consolide como um campo de convergência entre soberania produtiva, segurança energética e sustentabilidade real.

Fonte: PANORAMA DAS BIORREFINARIAS E BIOCOMBUSTÍVEIS NO BRASIL: CONTRIBUIÇÕES PARA A TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

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