Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e do Centro de Referência para Lactobacilos (Cerela-Conicet), da Argentina, desenvolveram uma bebida láctea fermentada capaz de influenciar a expressão de genes relacionados à absorção e transporte de folato (vitamina B9) e ao receptor de vitamina D. A fórmula combina soro de leite com extrato de subprodutos da indústria da uva e foi analisada por meio de experimentos in vitro e in vivo com bons resultados.
O objetivo da pesquisa foi avaliar se o consumo dessa bebida funcional seria capaz de modular a expressão de genes no intestino, especialmente os associados ao receptor VDR de vitamina D e ao transporte de folato. A ação combinada dessas vitaminas é relevante para processos como formação celular, síntese de DNA e função cerebral, além de respostas imunológicas e regulação do cálcio no organismo.
O primeiro ciclo experimental utilizou uma linhagem de células intestinais humanas cultivadas em laboratório. De acordo com os autores, o tratamento com a bebida bioenriquecida levou a um aumento na expressão dos genes de interesse em comparação ao grupo-controle. Entre eles, destacou-se a elevação do gene do receptor de vitamina D, o VDR.
Na fase em animais, camundongos alimentados com dieta deficiente em folato foram divididos em seis grupos distintos, recebendo diferentes variações da bebida. Um deles consumiu a versão fermentada enriquecida com vitamina B9; outro, a mesma bebida suplementada com vitamina D3. Após 21 dias, a análise das amostras de sangue e de tecido intestinal dos animais indicou que o consumo da fórmula fermentada contribuiu para prevenir sinais de deficiência de folato.
Uma das constatações importantes foi que, nos camundongos com dieta pobre em folato, houve redução significativa da expressão do receptor VDR no cólon. Isso sugere uma ligação funcional entre a biodisponibilidade de folato e a ativação dos mecanismos de absorção da vitamina D no intestino — algo ainda pouco descrito na literatura científica.
No entanto, os pesquisadores identificaram uma limitação potencial: a matriz láctea da bebida, composta em parte por soro de leite, pode ter restringido a absorção plena do folato. Ajustes futuros de formulação, como a redução da quantidade de soro, poderão melhorar esse desempenho. Segundo os autores, esse é um dos próximos passos do estudo.
Segundo Susana Marta Isay Saad, uma das coordenadoras da pesquisa, os resultados abrem oportunidades para o desenvolvimento de alimentos funcionais que promovam a saúde intestinal e ajudem na prevenção de deficiências nutricionais. No entanto, ela ressalta que ainda são necessários testes adicionais em modelos animais e, futuramente, ensaios clínicos com humanos.
Além de gerar novos caminhos para aplicações terapêuticas, a pesquisa também demonstra o potencial do reaproveitamento de subprodutos agrícolas – no caso, da indústria da uva – na formulação de produtos com valor agregado para a nutrição humana. A presença de fibras solúveis e compostos fenólicos nesses resíduos pode ser um dos fatores responsáveis por estimular a síntese de folato pelas culturas probióticas usadas na fermentação.
O trabalho faz parte das atividades do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP, e contou com apoio da fundação. A coautora Ana Clara Candelaria Cucick coordenou os experimentos durante seu doutorado e reforça que os achados contribuem para uma melhor compreensão da interação entre micronutrientes e microbiota.
Embora a nova fórmula ainda dependa de aprimoramentos para assegurar sua eficácia nutricional, a pesquisa evidencia um elo promissor entre alimento funcional, engenharia de alimentos e saúde pública, abrindo perspectiva para estratégias de biofortificação com base em processos fermentativos.
Fonte: Bebida bioenriquecida modula genes ligados ao aproveitamento de vitamina B9 e D
