A expansão da aquicultura está pressionando um ponto sensível da cadeia: a ração. O setor já responde por 51% do suprimento mundial de pescado para alimentação, enquanto a produção continental representa 62,6% dos animais aquáticos cultivados. Nesse contexto, o custo do alimento, que pode chegar a 40%–75% dos custos de produção, tornou-se uma variável estratégica. A dependência de farinha de peixe e farelo de soja expõe a atividade a riscos conhecidos: pressão sobre estoques pesqueiros, disputa por terras agrícolas, desmatamento, perda de biodiversidade e alta de preços dos ingredientes convencionais.
Uma revisão científica recente coloca a torta de algas desengordurada no centro dessa discussão. O material é obtido após a extração de lipídios da biomassa de microalgas para produção de biodiesel, por processos químicos, enzimáticos ou mecânicos. Mesmo com a retirada de grande parte dos óleos, o coproduto preserva proteínas, minerais, carboidratos, carotenoides e compostos bioativos. A lógica industrial é direta: transformar um resíduo de uma cadeia energética em insumo para ração aquícola, reduzindo desperdícios e criando uma ponte operacional entre produção de biocombustíveis e produção de alimentos.
O potencial nutricional é relevante, mas heterogêneo. Entre as biomassas avaliadas, espécies desengorduradas de Nannochloropsis aparecem com teores de proteína que chegam a 45,20% e, em um caso específico, 58,03%, enquanto o farelo de soja usado como referência apresenta 42,04% e a farinha de peixe, 71,85%. Outras microalgas mostram desempenho menor, o que reforça a necessidade de seleção por espécie e por processo. A revisão também aponta um limite técnico importante: a extração de lipídios pode elevar a presença de compostos que dificultam a digestão, como polissacarídeos não amiláceos, reduzindo o aproveitamento do alimento pelos peixes. A extrusão pode melhorar a digestibilidade, mas temperaturas excessivas podem diminuir o valor nutricional, especialmente pela perda de metionina.
Os resultados por espécie indicam que a dose é decisiva. Em geral, níveis abaixo de 10% tendem a apresentar baixo risco, com manutenção de crescimento, consumo, sobrevivência e morfologia intestinal. Em tilápia-do-nilo, a inclusão de 7,5% de Scenedesmus obliquus favoreceu o crescimento e manteve composição bioquímica adequada, enquanto 10% reduziu desempenho e digestibilidade. Em robalo-europeu, 5% de Nannochloropsis não alterou de forma relevante a digestibilidade ou a composição corporal, mas 10% aumentou a conversão alimentar e 15% reduziu parâmetros ligados à imunidade. Em truta-arco-íris, a inclusão de 10% de Nannochloropsis desengordurada manteve crescimento, conversão alimentar e sobrevivência em patamares comparáveis aos de dietas de referência.
Além do papel proteico, a biomassa de microalgas carrega uma agenda funcional. Compostos presentes em algumas espécies têm ação antibacteriana e antifúngica, com potencial para apoiar a saúde dos animais e reduzir a dependência de terapêuticos. A revisão cita estudos em que pequenas inclusões de Chlorella, entre 0,4% e 1,2%, estimularam marcadores imunes em peixes. Também há evidências de efeito prebiótico em biomassa desengordurada de Aurantiochytrium, associada ao crescimento de microrganismos benéficos no trato gastrointestinal, como Bifidobacterium, Streptococcus e Lactobacillus. Para a indústria, esse ponto é relevante porque desloca a análise da ração de um simples balanço de proteína para um desenho mais amplo de desempenho, saúde e eficiência produtiva.
O obstáculo econômico, porém, ainda é expressivo. Para competir com a farinha de peixe, a biomassa de microalgas precisaria custar cerca de US$ 2,65 por quilo; para substituir farelo de soja, o patamar estimado cai para aproximadamente US$ 0,66 por quilo. Os custos atuais de produção frequentemente superam US$ 4–5 por quilo, e a fração proteica em sistemas integrados de proteína e combustíveis renováveis pode chegar a US$ 7,27 por quilo. Exemplos comerciais citados na revisão incluem Spirulina a US$ 5 por quilo e Chlorella a US$ 10 por quilo, frente a uma referência de farinha de peixe de US$ 2,65 por quilo. Há, contudo, sinais de redução de custo por inovação de processo: cultivo por fermentação de S. acuminatus foi estimado em US$ 1,07 por quilo.
A adoção em escala dependerá menos de uma promessa isolada e mais de engenharia de processo, controle de qualidade e governança regulatória. A revisão lista desafios como alto custo de cultivo, grande demanda de água em alguns sistemas, baixa densidade de biomassa, extração intensiva em energia, variação nutricional entre espécies, risco de resíduos de solventes, umidade elevada, odores fortes, coloração escura, baixa palatabilidade, fatores antinutricionais, toxinas, metais pesados e resíduos de pesticidas. O caminho técnico inclui padronizar cultivo e armazenamento, aplicar secagem de menor custo, usar tratamentos enzimáticos ou fermentação, selecionar espécies com menor teor de fatores antinutricionais, testar contaminantes e reduzir o consumo energético no processamento. O ganho ambiental é o principal argumento para insistir: a revisão cita produtividade proteica de microalgas de aproximadamente 366 mil quilos por hectare ao ano, contra 4 mil quilos por hectare ao ano da soja, além de menor pressão sobre estoques marinhos e sobre áreas agrícolas. A torta de algas desengordurada ainda não é uma solução pronta para substituir ingredientes tradicionais em larga escala, mas já se apresenta como uma alternativa tecnicamente plausível para formulações precisas, com maior segurança quando usada em níveis moderados e acompanhada por controle rigoroso de processo.
Fonte: Evaluating the nutritional and economic potential of defatted algae cake in aquaculture: A review
