O debate sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), adotados no âmbito das Nações Unidas, volta ao centro das discussões energéticas ao se observar como metas amplas e interdependentes precisam ser traduzidas em políticas nacionais. Entre os 17 objetivos e 169 metas previstas até 2030, o texto analisado destaca o ODS 7, que trata de acesso confiável, sustentável e a preço acessível à energia moderna, e chama atenção para as tensões técnicas e sociais embutidas na sua implementação.
O ODS 7 é apresentado a partir de três frentes consideradas centrais: universalização do acesso a serviços de energia (7.1), aumento da participação de renováveis na matriz global (7.2) e melhoria da eficiência energética (7.3). A leitura proposta ressalta que alcançar essas metas não é um exercício isolado: a transição energética altera cadeias produtivas, pressiona infraestrutura e pode deslocar impactos entre setores, o que exige avaliar ganhos e perdas de forma integrada.
Entre os exemplos de sinergia, o texto aponta a substituição de carvão e gás natural por energia eólica, solar fotovoltaica e biomassa na geração elétrica, combinada ao uso dessa eletricidade no transporte e na indústria. O resultado esperado, segundo a análise, é a melhoria da qualidade do ar urbano, com efeitos sobre saúde e bem-estar e repercussões econômicas associadas à redução de doenças respiratórias. A mensagem para tomadores de decisão é direta: a engenharia que viabiliza a eletrificação e a integração de fontes renováveis pode produzir co-benefícios mensuráveis fora do setor elétrico.
O texto também explicita uma interação negativa típica de transições tecnológicas: reduzir emissões veiculares pode demandar filtros adicionais, elevando consumo de energia e, em países com forte presença de combustíveis fósseis, aumentando emissões em outro ponto do sistema. A partir desse tipo de “efeito colateral”, a discussão se aproxima do que empresas e governos enfrentam ao desenhar regulações e investimentos: a necessidade de medir resultados por ciclo e por sistema, evitando deslocar emissões e custos sem perceber.
Um estudo citado do International Institute for Applied System Analysis (IIASA) é usado para organizar essas interações: o avanço do ODS 7 teria efeitos positivos sobre objetivos como erradicação da pobreza, saúde, água e saneamento, cidades sustentáveis, consumo e produção sustentáveis e ação climática. Em contrapartida, poderia gerar efeitos negativos sobre metas ligadas a fome zero e vida terrestre, sobretudo quando a expansão de biocombustíveis se dá por uso predatório da terra e desmatamento, com menção ao caso do dendê para biodiesel na Indonésia, ou quando ocorre competição entre produção de alimentos e produção de combustíveis.
Ao questionar quais forças econômicas sustentariam a implementação dos ODS, o texto lista “drivers” que vão além do setor de energia: preocupações com biodiversidade e florestas, demanda social por água e ar limpos, além do peso crescente dos danos associados a eventos climáticos extremos. Soma-se a isso o avanço tecnológico que torna renováveis mais competitivas e a geração de empregos associada a essas fontes, apresentada como superior à do modelo baseado em combustíveis fósseis. A implicação prática é que investimento, regulação e planejamento energético tendem a responder a pressões econômicas e sociais mais amplas do que a lógica setorial tradicional.
Para o Brasil, o texto registra uma posição relativamente favorável pela presença significativa de renováveis na matriz energética, citando participação de 43,5% no consumo em 2016, com destaque para hidroeletricidade (12,6%) e derivados de cana-de-açúcar (17,5%), além de lenha e carvão vegetal (8,0%) e outras renováveis (5,4%). A análise ressalta dois eixos: a expansão do sistema hidrelétrico com armazenamento como apoio à variabilidade de eólica e solar, e a biomassa de cana, com estimativa de uso atual de cerca de 10 milhões de hectares e possibilidade de expansão sem desmatamento adicional e sem comprometer a demanda futura de alimentos. Nesse cenário, os combustíveis resultantes poderiam, segundo o texto, reduzir o consumo mundial de petróleo entre 3,8% e 13,7%, reforçando a centralidade do planejamento territorial e das escolhas tecnológicas na engenharia da transição.
Fonte: José Goldemberg – Agregação de valor nas cadeias produtivas agrícolas
