Uma eletiva em bioeconomia voltada à formação de professores na Irlanda está testando, em escala real, como conectar engenharia, educação básica e artes para formar cidadãos mais preparados para a transição sustentável. A iniciativa, chamada Bioeconomy Elective 2024/2025, é oferecida pelo Departamento Froebel de Educação Infantil e Primária da Maynooth University e integra a série de estudos de caso de Educação para o Desenvolvimento Sustentável da autoridade de ensino superior irlandesa.
O módulo foi desenhado para futuros docentes do ensino primário e se ancora em uma filosofia eco-feminista Froebeliana, que combina conhecimentos científicos, saberes indígenas, artesanato tradicional e reflexão ética. A proposta é que esses professores consigam traduzir temas complexos, como clima, economia circular e uso de recursos biológicos, em práticas acessíveis para crianças, por meio de linguagem simples, histórias, atividades manuais e experiências na natureza. O desenho curricular dialoga com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, com os temas de bioeconomia do projeto BioBeo e com a ética do cuidado, além de alinhar-se tanto ao currículo irlandês de 1999 em Estudos Sociais, Ambientais e Científicos quanto ao novo Primary Curriculum Framework 2023.
Em 2025, a eletiva ganhou escala ao se integrar ao projeto europeu BioBeo (financiado pelo programa Horizon Europe) e ao centro de pesquisa BiOrbic, especializado em bioeconomia. Um marco dessa cooperação foi o BioBeo–BiOrbic Bioeconomy Education Workshop, co-organizado por Maynooth University e University College Dublin (UCD), que reuniu estudantes de licenciatura, pesquisadores, engenheiros e educadores em um espaço transdisciplinar. Nesse contexto, estudantes de engenharia da UCD projetaram e construíram um teatro de fantoches feito inteiramente com materiais reciclados, que serviu de palco para o projeto final da disciplina: um espetáculo sobre interconexão ecológica, criado com técnicas de crochê e costura manual. O teatro materializou princípios de design circular e funcionou como metáfora visual da bioeconomia em ação, aproximando soluções técnicas de práticas pedagógicas para crianças.
A experiência foi descrita como transformadora pelos estudantes em final de curso, por tornar concreta a integração entre engenharias e educação para a bioeconomia, além de demonstrar como resíduos e biomateriais reutilizados podem se tornar recursos didáticos de baixo custo. O projeto foi apresentado em três frentes: em março de 2025, na Comissão Europeia, como parte da divulgação do BioBeo; em junho de 2025, no UCD Festival, com foco em sustentabilidade no ensino superior; e nas próprias atividades da eletiva. Paralelamente, os estudantes desenvolveram competências em artesanato tradicional, explorando crochê, tricô, costura e tintas à base de plantas como ferramentas para trabalhar sustentabilidade, criatividade e cuidado com o ambiente, sem perder a conexão com o patrimônio cultural.
Com um desenho experiencial e centrado no estudante, a eletiva combina contação de histórias, reflexão cultural e investigação ecológica em ambientes internos e externos. O uso da língua irlandesa, do folclore e da tradição oral reforça a ideia de que identidade cultural faz parte da construção de uma visão de sustentabilidade. Entre os efeitos relatados, os futuros professores afirmaram ter aumentado sua confiança para explicar sustentabilidade em linguagem adequada à infância, integrar temas ambientais em diferentes disciplinas, conduzir atividades de baixo desperdício baseadas em artesanato e aplicar princípios ecofeministas e Froebelianos na prática cotidiana de sala de aula.
Do ponto de vista metodológico, o módulo adota uma abordagem não avaliativa em termos de notas, priorizando processos colaborativos, reflexivos e práticos em vez de provas somativas. A avaliação se concentra na co-construção de conhecimento, exemplificada pela criação coletiva do teatro de fantoches com biomateriais reciclados, pela composição da canção em irlandês “An Talamh Bhláfar”, com temática de bioeconomia, e pela participação no workshop transdisciplinar “Ceardlann Oideachais: BioBeo and BiOrbic Bioeconomy Education Workshop”. Segundo os coordenadores, a ausência de notas favoreceu um ambiente de baixo risco e alto impacto, que estimula pensamento crítico, integração entre áreas e abertura emocional necessária para tratar de sustentabilidade com crianças.
Os resultados medidos indicam impacto relevante. Todos os participantes relataram, ao final do módulo, maior conexão com a natureza, aumento na percepção de bem-estar e compreensão mais clara da interdependência entre ecossistemas. Em uma escala de 10 pontos que avalia “harmonia com a natureza”, a média passou de 5,08 antes das atividades em ambiente interno para 9,38 após as sessões ao ar livre, sugerindo ganho expressivo na sensação de vínculo ambiental. Oficinas criativas foram destacadas como espaços de engajamento reflexivo e terapêutico, ajudando a internalizar conceitos de bioeconomia e práticas sustentáveis que poderão ser replicados em contextos escolares.
No plano institucional, a eletiva é vista como um modelo escalável para incorporar educação para o desenvolvimento sustentável na formação inicial de professores. A força do projeto está em articular ciência, engenharia, patrimônio cultural, ética, pedagogia e artes em experiências integradas. Os próximos passos incluem levar elementos da eletiva para disciplinas obrigatórias dos cursos de Bachelor of Education (Primary) e Professional Master of Education (Primary); ampliar parcerias com especialistas em artesanato e educadores em sustentabilidade; intensificar a colaboração com BioBeo, BiOrbic e departamentos de engenharia; e coletar retornos de egressos que implementarem essas práticas nas escolas. A experiência envolveu cerca de 50 estudantes de áreas como Artes e Humanidades, Educação e Engenharia, Manufatura e Construção, e contou com o apoio do Froebel Trust, de programas Erasmus e de financiamento Horizon Europe.
