Um estudo conduzido em Camarões avaliou como o tamanho das partículas do pergaminho de café, resíduo fibroso do processamento, altera o desempenho do cultivo de Pleurotus ostreatus e Pleurotus citrinopileatus. A pesquisa testou três classes de substrato: pergaminho bruto (partículas acima de 50 mm), médio (entre 0,0049 mm e 50 mm) e fino (abaixo de 0,0049 mm), sob condições controladas de incubação e frutificação.
Os resultados indicam que a refinação física do substrato acelera etapas críticas do ciclo. Tanto no substrato médio quanto no fino, a colonização do material pelo micélio e a formação de primórdios ocorreram mais cedo, com adiantamento de até 7 a 8 dias em relação ao pergaminho bruto. Para P. ostreatus, o tempo de colonização caiu de 17,0 para 15,0 dias; para P. citrinopileatus, de 18,0 para 16,0 dias. Já o tempo entre o surgimento de primórdios e a colheita permaneceu praticamente estável (cerca de 6 a 6,5 dias), sugerindo que o ganho está concentrado na fase inicial do cultivo.
Em produtividade, o substrato fino foi o que mais elevou o desempenho. No pergaminho fino, P. ostreatus alcançou 377,2 ± 18,5 g de produção total e P. citrinopileatus, 355,0 ± 17,0 g. Os autores registraram eficiência biológica de 75,2% e 72,0%, respectivamente, além de taxa de produção de 156,7% e 150,5%. No material bruto, a produção total foi bem menor: 203,6 ± 12,0 g (P. ostreatus) e 186,5 ± 11,2 g (P. citrinopileatus), com eficiências biológicas de 42,2% e 39,0%.
Os dados também mostram uma diferença operacional relevante entre as duas espécies: P. ostreatus teve desempenho superior em produção total, eficiência e taxa de produção em todas as granulometrias, embora P. citrinopileatus tenha respondido positivamente ao ajuste do substrato e se aproximado dos melhores resultados quando cultivado no pergaminho fino. Em todos os tratamentos, a primeira “leva” de colheita concentrou a maior parcela da produção, com participação superior a 36% do total nos melhores cenários.
Além da massa produzida, o estudo mediu parâmetros de morfologia ligados à qualidade comercial. O substrato médio se destacou nesses indicadores: em P. citrinopileatus, foram 30,00 ± 2,80 píleos, com diâmetro médio de 8,00 ± 1,50 cm e estipe de 11,50 ± 1,20 cm; em P. ostreatus, 28,20 ± 3,12 píleos, diâmetro de 9,50 ± 2,22 cm e estipe de 13,15 ± 1,33 cm. No pergaminho bruto, o número de píleos foi muito menor (por exemplo, 9,55 ± 1,22 em P. ostreatus).
A pesquisa também quantificou cor de chapéu por colorimetria (L*, a*, b*) e encontrou mudanças consistentes associadas à estrutura do substrato. O substrato médio resultou em chapéus mais escuros (queda acentuada de L*) e em maior componente de vermelho (a*), com P. ostreatus atingindo a* = 14,00 e P. citrinopileatus, a* = 15,50. Esses efeitos aparecem como um indicativo, no recorte do experimento, de alterações na formação de pigmentos associadas ao manejo físico do pergaminho.
Do ponto de vista de engenharia de processos, o trabalho sustenta que o tamanho de partícula é um determinante direto de desempenho ao alterar a acessibilidade do micélio ao substrato e o comportamento do sistema em termos de umidade e aeração. Ao demonstrar ganhos mensuráveis em precocidade, rendimento e qualidade usando exclusivamente resíduo lignocelulósico do café, o estudo reforça o potencial de integrar o pergaminho de café a modelos circulares de produção de alimentos em regiões cafeeiras, com método descrito e condições controladas para incubação e frutificação.
